English version Home Contato
  • ecotomo
  • lapa-vemelha
  • img-slide

Livros » Gestão de Projetos de Mineração – Riscos de Investimentos

GESTÃO DE PROJETOS DE MINERAÇÃO – Riscos de Investimentos

Livro Digital

Jorge Raggi

Engenheiro Geólogo e Consultor – jorgeraggi@geoconomica.com.br

Janeiro/2014

Imagem-FEL

Figura 01: Front End Loading – FEL     Fonte: IPA: Independent Project Analysis.

 

RESUMO

 Os gestores de projetos industriais elegeram há vários anos o Front End Loading – FEL, um método que evolui da Avaliação Conceitual – Escopo – Pré-Viabilidade – Viabilidade – Engenharia de Detalhe e Construção. Cada uma das etapas pode ser considerada como um portão que permite passagem para (i) a etapa seguinte, (ii) ou paralisa, (iii) ou encerra o projeto. Em mineração nossa proposta é considerar dois FEL’s: Pesquisa Mineral e Produção Mineral. A pesquisa mineral tem características que individualizam a atividade, enquanto a produção mineral segue mais próxima de um complexo industrial. Os FEL’s podem ser sequenciais ou paralelos conforme a estratégia em relação a riscos seja de aversão ou de alavancagem. Nesse contexto apresentamos performance de empresa de mineração, a visão de investidor e uma comparação do avanço da pesquisa com derivativos do mercado financeiro em relação ao lastro referencial. O objetivo deste trabalho é o das normas internacionais NI 43-101 (National Instrument, canadense) e JORC (Joint Ore Reserves Committee, australiana): transparência, materialidade e competência na gestão de projetos de mineração, que desenvolveram, desde sua implantação em 2.001, melhor desempenho entre os profissionais do setor de mineração e os investidores. As empresas de mineração e investidores, por sua vez, estão em condições de avaliar melhor seus ativos, desde alvos com potencias a depósitos minerais e criar valores.

INTRODUÇÃO. 2

MÉTODO. 4

Gestão de Pesquisa Mineral 4

Gestão de Produção Mineral 10

DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO FEL. 14

Modelo FEL Sequencial 14

Modelo FEL Paralelo. 15

RISCOS. 16

Aversão a Riscos: Modelo Sequencial 16

Alavancagem de Riscos: Modelo Paralelo. 18

A PROBABILIDADE DA DESCOBERTA EM MINERAÇÃO. 22

VALORAÇÃO DE DEPÓSITOS MINERAIS. 24

CONCLUSÕES. 25

BIBLIOGRAFIA. 26

AGRADECIMENTOS. 27

 

INTRODUÇÃO

 Os Projetos de Produção Mineral podem ser melhor entendidos se trabalhados com método de avanço, como o FEL – Front End Loading, com portões definindo estágios bem identificados na área industrial. A Pesquisa Mineral é ainda pouco conhecida para receber investimentos comuns a outros setores. Visando destacá-la estamos propondo separar a Pesquisa Mineral  do Projeto de Produção. Este existe a partir do depósito mineral descoberto. São dois FEL’s que se completam, mas podem ser individualizados.

Podemos comparar na indústria a Pesquisa Tecnológica e a Fábrica de Produtos. São também dois FEL’s. Primeiro é preciso descobrir a tecnologia, depois montar a linha de produção. A Mina, equivale à fábrica, com os produtos minerais na forma de barras de ouro, cobre, zinco, chumbo, alumínio, e tudo que vemos na nossa civilização. Mas para montar a Mina é preciso primeiro descobrir, estudar os riscos, qualificar e quantificar o minério no depósito existente “in situ”.

A pesquisa mineral é o início de um grande fluxo de produção. A descoberta de um depósito mineral viabiliza a implantação de uma produção gerando produtos para a indústria de transformação, de insumos que sustentam nossa civilização. A partir de 2.001 com a implementação das normas internacionais passou a ser regulamentada a apresentação de projetos de mineração para os investidores e o público, com diretrizes de forma, de precisão dos dados, os tipos de métodos aceitos para os estudos, as qualificações e certidões necessárias para pessoas e empresas responsáveis.

O CSA – Canadian Securities Administrators, como exemplo, reúne entidades ligadas a regulamentações sobre fundos de investimentos, bolsas de valores, títulos públicos. Possui um órgão responsável pela guarda de documentos de empresas com ações na Bolsa de Valores do Canadá: “The System for Eletronic Document Analysis and Retrieval” – SEDAR (Sistema Eletrônico de Recuperação e Análise de Documentos), que pode ser acessado no site www.sedar.com . Existem vários projetos de mineração disponíveis, desde alvos poucos trabalhados, mas com potencial, a grandes projetos de implantação.

O método FEL da Pesquisa Mineral com as normas que sustentam transparência, materialidade e competência na gestão pode dar condições aos investidores para sentir mais segurança. No desenvolvimento do FEL consideramos os modelos Aversão a Riscos e Alavancagem de Riscos. No primeiro a pesquisa mineral avança e após a identificação de um depósito mineral inicia o projeto da produção. No segundo, grande parte dos trabalhos são realizados em paralelo aumentando os riscos do investimento, mas buscando agilidade da produção.

Para melhor visualização da pesquisa mineral podemos comparar com derivativos do mercado financeiro, em relação ao lastro referencial. A pesquisa mineral na sua fase inicial de alvos a trabalhar tem risco muito alto, e à medida que avança aproxima-se do lastro que é um depósito mineral. Enquanto o derivativo pode distanciar do lastro à medida que vai derivando em outros.

A probabilidade da descoberta de depósitos minerais possui estatísticas que podem balizar os riscos de investimentos. O Departamento Nacional da Produção Mineral, no período de 26 anos, 1988 – 2.013, para 516 mil requerimentos de pesquisa (100%),  49 % tiveram autorizações para pesquisa, e resultaram em 4 % de aprovação das pesquisas realizadas e só 1% obtiveram concessões para lavra. São apresentados em separados os dados de 2.010, 2.011, 2.012 e 2.013 para comparação. A De Beers confirma estes dados com seu histórico de produção de diamantes no mundo. Este é o risco geológico para encontrar um depósito. Acrescentamos a estatística da Rio Tinto para encontrar uma grande descoberta em condições de impactar a produção global.

Ao risco geológico deve ser acrescentado os riscos tecnológicos, econômicos, ambientais e políticos. A administração destes riscos permite a valoração da pesquisa mineral em suas diversas fases e dos depósitos minerais. É uma possibilidade real com as normas internacionais e um método como o FEL, criando mais confiança e controle ao investidor, aos órgãos governamentais.

O método FEL – Front End Loading  tem os passos necessários para implantação de projeto. As etapas evoluem à medida que os dados são mais conhecidos, mais precisos, de forma a garantir o planejamento de qualidade, orçamento e prazo, reduzindo de um modo concreto e monitorado as incertezas e consequentemente os riscos.  FEL , “funnel”, funil, é utilizado em empreendimentos que requerem grandes fluxos de capital, com o objetivo de minimizar os riscos de investimentos em projetos. É possível uma definição detalhada do escopo dos projetos alinhando-os aos objetivos da empresa. Dessa forma desenvolvem-se informações estratégicas com as quais os investidores podem enfrentar riscos e tomar decisões para alocar recursos maximizando o potencial de resultados. O FEL é principalmente uma elevação do nível de conhecimento e precisão na análise dos riscos técnicos e econômicos de um projeto e pode ser aplicado em empreendimentos de qualquer ordem de valores de investimento.

O ciclo de vida de um projeto mineral pode ser dividido em: Concepção, Desenvolvimento, Execução, Operação e Reabilitação da Área. E cada uma dessas fases pode também apresentar subdivisões. As transições de um estágio para o outro são denominadas gates ou “portões de passagem”. Estes gates representam pontos de tomada de decisão quanto à aprovação do projeto para a próxima fase, retorno para melhor definição, ou cancelamento.  Este modelo de fases apresentado pode ser adaptado para cada tipo de atividade e empresa. A valorização no negócio de exploração e desenvolvimento mineral está na diferença de percepção de valor, independentemente do estágio de desenvolvimento e da localização geográfica. Caracteriza-se assim como um negócio de oportunidades.

img1

MÉTODO

FEL – Gestão de Pesquisa Mineral

A partir de 2.001 a Bolsa de Toronto exigiu das empresas de mineração que os quantitativos de minérios “in situ” em seus depósitos minerais estivesse em conformidade com a National Instrument : NI 43 – 101. A Austrália criou o JORC Code (Joint Ore Reserves Committee). Estas duas normas tornaram-se as mais conhecidas, apoiando as “Diretrizes para a Divulgação de Recursos e Reservas e dos Resultados da Exploração Mineral”, adotado nos Estados Unidos da América em 1.998 e da “Estrutura para a Classificação de Recursos e Reservas de Combustíveis Sólidos e Bens Minerais” da ONU, divulgado em 1.996.

A forma de apresentação dos resultados de pesquisa mineral como definem as normas, permitem auditagem nas pesquisas para comprovar os conteúdos minerais em condições de economicidade, de segurança ambiental, permitindo lastrear, garantir financiamentos, lançamento de ações em bolsas e outras aplicações financeiras.

O Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) trabalhou para padronizar no Brasil as normas internacionais e publicou uma minuta em novembro de 2.002 : “Norma Brasileira para Classificação de Recursos e Reservas Minerais”. Mas não foi implantada, deixando o Brasil há mais dez anos sem estas certificações.

Os objetivos destas normas são:

a)  Padronizar a forma de reportar resultados das pesquisas geológicas;

b)  Definir os critérios necessários para classificação dos depósitos e

c)  Definir as condições externas para a classificação dos volumes do depósito entre recursos e reservas.

A definição das condições externas, por exemplo, podem variar de acordo com:

a)  Questões técnicas relativas à lavra, explotação e beneficiamento do minério,

b)  Custos operacionais, volumes de investimento inicial e infraestrutura local,

c)  Preços das commodities e taxas de câmbio,

d)  Questões legais, regionais, governamentais e ambientais.

As normas propõem duas classes de apresentação dos trabalhos de avaliação de depósitos minerais dentro das quais existem subclasses que se relacionam de acordo com as condições externas acima, conforme figura abaixo.

img2

The JORC Code  – 2012 Edition

As normas buscam evidenciar diferentes níveis de conhecimento de depósitos minerais e valorizar os profissionais envolvidos. Ela determina o que é “recurso e reserva mineral” através do volume de trabalho de pesquisa realizado no depósito mineral, sob a responsabilidade de pessoas com competências reconhecidas.

Manual de Procedimentos

Com a finalidade de atingir os princípios estabelecidos, é necessária uma padronização de procedimentos, isso significa que as atividades deverão ser conduzidas sempre da mesma maneira, assim, é necessário que se estabeleçam métodos para a condução ou execução de cada uma das atividades.

Uma das maneiras de padronizar os procedimentos ou atividades conduzidas durante o processo de descoberta, avaliação, cálculo de recursos e reservas é criar um manual de procedimentos onde estão descritas as diversas atividades e como cada uma deve ser feita.

O Manual de Procedimentos é o conjunto de métodos necessários ao andamento do projeto, cada método desse conjunto descreve detalhadamente como proceder na execução de cada uma das tarefas ou atividades de um projeto.

É necessário esclarecer que um manual de procedimentos não é uma figura estática, ele evolui com o tempo, mas sua evolução deve ser bem discutida, analisada e adotada sempre que for necessário. Um fator importante é que se um método é modificado, essa modificação deve ser informada a todos os usuários de modo que a padronização de procedimentos seja sempre alcançada.

A importância dessa padronização de procedimentos é essencial para a aplicação das Normas, qual sejam seus princípios de Transparência, Materialidade e Competência. O estabelecimento de um Manual de Procedimentos significa dizer que as atividades que foram feitas por pessoas diferentes, em locais diferentes e para metais ou minérios diferentes foram conduzidas exatamente da mesma maneira, e podem ser assim objeto de comparação e auditoria.

Banco de dados de resultados 

A correta utilização do Manual de Procedimentos resulta em uma padronização na condução das diversas atividades que é um fator de suma importância no controle e na qualidade dos dados armazenados.

Essa padronização implica na formatação de um Banco de Dados de Resultados, onde serão arquivadas as informações das diversas atividades que foram executadas em uma dada área, tornando prática acessível e objetiva a localização de um dado ou de um conjunto de dados para posteriores estudos e aplicações. Ele é um banco de informações digital.

Esse banco de dados é a fonte de informações para as etapas futuras do projeto sempre permitindo verificar a sua integridade e a consulta de seu conteúdo a qualquer época por quem tiver competência e for autorizado para tal. Existem no mercado diversos softwares com diferentes tipos de banco de dados voltados para informações de pesquisa mineral e mineração.

Nos processos de financiamento para implantação de projetos, os técnicos das organizações verificam a viabilidade do financiamento, checando as etapas do projeto a ser financiado, através da consulta e posteriores simulações econômicas, utilizando as informações armazenadas no banco de dados do projeto.

Na Gestão de Pesquisa Mineral os diversos portões do FEL (1, 2, 3, 4 e 5) são entendidos como análises que visam verificar se a ocorrência mineral que está se trabalhando pode ser promovida ao passar por cada portão do FEL. Se cumpridas todas as fases desse FEL (Figura 02), tem-se um melhor conhecimento geológico e econômico possível dentro das condições do momento possibilitando obter um corpo de minério com as características já definidas.

img3

    Figura 02: FEL – Gestão de Pesquisa Mineral.

 

Como na maioria das vezes os alvos e/ou projetos estão em diferentes estágios de conhecimento, seria necessário estabelecer um banco de dados para posicionar, dentro do processo pesquisa mineral onde situariam cada um dos alvos.

Isso é feito  criando-se etapas dentro do processo de pesquisa mineral definindo o que é cada uma das etapas e o produto que cada uma delas deve gerar.

Considerando que o processo Pesquisa Mineral é o conjunto dos trabalhos conduzidos para geração de um depósito mineral, ou seja, um corpo de minério passível de ser lavrado economicamente nos dias atuais.  Ele vai desde os primeiros levantamentos bibliográficos até a conclusão dos estudos, conjunto de informações que a seguir seguem para a área da engenharia definir e elaborar o projeto de produção mineral.

A Pesquisa Mineral é dividida em cinco etapas assim denominadas:

  • FEL 1 –      Reconhecimento
  • FEL 2 –      Pesquisa Mineral
  • FEL 3      -  Avaliação
  • FEL 4      -  Recursos / Reservas
  • FEL 5 –      Plano de Aproveitamento Econômico.

 

FEL 1 – Reconhecimento

Os primeiros estudos definem as substâncias que serão exploradas. Essas informações básicas muitas vezes são obtidas de decisões da alta cúpula da empresa ou em condicionantes do mercado. Com base nessas informações são feitas pesquisas bibliográficas para  verificar os modelos de mineralização e quais deles se encaixam dentro do arcabouço geológico que o território dispõe.

Selecionados os modelos de uma forma ampla, realizam os primeiros reconhecimentos de campo visando definir, dentro das sequências possivelmente férteis para uma dada substância, quais as áreas no terreno apresentam as características do modelo definido.

Nesse ponto iniciam os trabalhos mais regionais de levantamentos geológicos, geoquímicos ou geofísicos, procurando definir alvos para  maior detalhe. Para cada um dos alvos regionais é feita uma planilha com o histórico de sua localização, as suas características e outra com os trabalhos necessários e planejados, quantificados e localizados no tempo. Deverá ser elaborado um relatório sucinto justificando a seleção do alvo regional bem como mostrando os trabalhos que foram feitos para sua definição.

Novamente, para cada um desses alvos é feita uma planilha com as características do alvo, tais como localização, tipo de anomalia, documentada por mapas geoquímicos, geofísicos e geológicos. Esses mapas devem seguir um formato padrão definido a priori, em termos de escala, tamanho, e outros elementos que deverão ser objeto de uma norma que deverá ser anexada a um Manual de Procedimentos. É bom observar que o manual de procedimentos é um documento evolutivo que vai sendo acrescido de novas normas e atualizado em virtude da experiência que vai sendo acumulada com a evolução dos trabalhos.

FEL 2 – Pesquisa Mineral

Os alvos priorizados, produtos da “Etapa 1 – Reconhecimento” serão trabalhados nesta Etapa 2. Os alvos não selecionados vão compor um banco de alvos.

Nessa etapa para cada um dos alvos priorizados deverá ser feita uma programação de trabalhos de forma a permitir a localização de uma mineralização do tipo pesquisado. O produto final dessa etapa são alvos priorizados com mineralização definida dentro do modelo procurado.

Pode ocorrer que a cada novo serviço alguns alvos venham a mostrar resultados negativos indicando a ausência de mineralização. Esses alvos são suspensos, e, ou, abandonados depois de devidamente documentados e colocados em espera em um banco de alvos. O volume de serviços planejado para eles pode ser utilizado em outro alvo retirado do banco de alvos.

FEL 3 – Avaliação

Os alvos gerados na Etapa 2  e priorizados, são o objeto de trabalho da Etapa 3. É importante salientar que na maioria das vezes a priorização final dos alvos de uma dada etapa é feita em função de uma perspectiva orçamentária. Quando se elabora um orçamento anual ele é feito em bases definidas e os valores a ser investido nos trabalhos de pesquisa mineral resulta que nem todos os alvos podem ser trabalhados naquele ano. São priorizados sempre os melhores e os demais são colocados em um banco de alvos e poderão ser aproveitados em outra época.

Os alvos da Etapa 2 selecionados e priorizados são detalhados nesta Etapa 3, onde os trabalhos tem um maior detalhe e visam definir se a fonte da anomalia que gerou o alvo contém mineralização extensa o suficiente para conter um depósito com perspectiva econômica. Analisando toda a informação existente é feita uma programação de trabalho para cada alvo, da mesma forma que se fez nas etapas anteriores.

Os trabalhos obtém maior detalhe, e são planejados os primeiros furos exploratórios visando maiores definições da mineralização e definir a sua extensão. O produto da Etapa 3 são alvos com mineralização e com extensão compatível com um corpo de minério econômico dentro do modelo pré-estabelecido.

FEL 4 – Recursos e Reservas

Os alvos selecionados e priorizados, produtos da Etapa 3 são objeto dos estudos da Etapa 4. Novamente os resultados dos alvos são analisados de uma maneira profunda, selecionados e priorizados e elaborada uma programação de trabalho para cada um deles. A programação de trabalhos visa agora definir reservas, assim o produto desta “Etapa 4 – Avaliação” são reservas minerais cubadas com todos os parâmetros geológicos, geométricos e geometalúrgicos definidos – elementos necessários aos estudos de engenharia e planejamento do empreendimento mineiro.

Nessa etapa são programadas malhas de sondagem orientadas por estudos geoestatísticos preliminares e condicionada pelo volume mínimo necessário para se implantar um empreendimento mineiro. O produto da Etapa 4 são corpos de minério cubados com características definidas que permitam a elaboração de um projeto mineiro em todos os seus aspectos.

FEL 5 – Plano de Aproveitamento Econômico

Um plano de lavra tem os itens necessários bem conhecidos, mas o que se busca é a confiabilidade. O FEL 5 de Pesquisa Mineral se equivale ao FEL 1 de Implantação Mineral mas as equipes de trabalho são diferentes.

FEL- Gestão de Produção Mineral

As atividades que são conduzidas no sistema de portões FEL (1, 2, 3, 4 e 5) são similares aos empreendimentos industriais. Ao passar por todos os portões desse FEL, tem-se o detalhamento da operação com extração mineral, usina e logística, contendo os elementos necessários a produção e principalmente a acurácia da previsão dos investimentos. Por exemplo, ao avançar os portões a previsão de orçamentos em relação à realidade vai se aproximando mais.

FEL 1 -  50 %

FEL 2 -  30 %

FEL 3 -  20 %

FEL 4 – 10 %

À medida que vai se buscando a precisão dos investimentos segue também a discussão detalhada dos processos, mercados, infraestrutura, logística, criando em cada portão maior segurança para o empreendimento.

É importante salientar que em ambas as gestões quando o objeto de trabalho é submetido aos testes em cada FEL, se o resultado é positivo o processo continua, se o resultado é negativo o processo se encerra, ou paralisa aguardando.

 img4

        Figura 03: FEL – Gestão de Produção Mineral

 O reconhecimento da região com reserva mineral deve seguir um roteiro de atividades para viabilizar o empreendimento. Os trabalhos que deverão ser realizados permitem identificar características suficientes para complementar os recursos lavráveis e justificar os prosseguimentos dos estudos geológicos no local, que vão continuar durante toda a vida do empreendimento.

Trabalhos de pesquisa realizados 

O FEL Produção Mineral precisa validar os dados obtidos no FEL Pesquisa Mineral. Estes deverão seguir o mesmo desenvolvimento no projeto que o estudo geológico. Deverá ser padronizado e de acordo com o modelo apresentado neste documento. O conhecimento de vários itens a seguir, como exemplos, é de extrema importância para a viabilidade da implantação:

a)    Amostragem

b)   Recursos / Reservas

c)    Composição mineral e limites de teor

d)    Topografia

e)    Determinação de peso especifico

f)     Definição de massa e teor

g)    Análise de variográfica

h)    Modelamento de blocos

i)     Geometalurgia

j)     Vida útil.

Alguns itens de estudo para a produção mineral estão listados a seguir:

  • Localização e vias de acesso: conhecimento do local onde será implantada a mina e as principais vias de acesso (aérea, terrestre e marítima) a propriedade.
  • Verificação de dados: conduzir uma auditoria externa no banco de dados do depósito e nas interpretações geológicas incluindo validação dos dados contidos no resultado da pesquisa mineral.
  • Análise de mercado: são abordagens voltadas aos mercados da substância explorada, tanto do ponto de vista doméstico quanto do mercado externo. Cabe análise de ordem econômica em geral.
  • Lavra: escolha do método para a extração do depósito mineral. A céu aberto, e, ou subterrânea.
  • Planta de beneficiamento: definir o tipo de planta de beneficiamento, rota de processo e regime de operação
  • Infraestrutura: verificar principalmente disponibilidade de energia e água local para projetar instalações de apoio operacional que servirão de suporte nas atividades administrativas, de produção e de manutenção.
  • Licenciamento, meio ambiente e sócio economia: estabelecer políticas de desenvolvimento sustentável para orientar o projeto com o objetivo de atender às orientações internacionais e normas locais aplicáveis, preconizando minimizar eventuais impactos ambientais durante o projeto de construção e operação.
  • Avaliação econômica do projeto: os custos de capital  (CAPEX) e custos operacionais (OPEX) para o projeto. No CAPEX prevê-se construção e comissionamento das instalações na mina englobando custos diretos e indiretos. No OPEX: mina (detonação, carregamento e transporte, materiais e peças de reposição dos equipamentos), planta (custos de energia, consumíveis, manutenção e outros custos relativos a todas as operações unitárias previstas) e geral & administrativo (peças de desgaste dos equipamentos, mão de obra).
  • Recursos e reservas minerais: a partir da pesquisa mineral com reserva provável e comprovada. Projetação do seqüenciamento de lavra e definição da vida útil da mina.
  • Porte do Empreendimento: classificar o porte do empreendimento de acordo com a capacidade produtiva que a mina oferece.
  • Cronograma de produção mineral e operação: programar início da produção e a longo prazo (vida útil da mina).
  • Conformidade com programas governamentais: tem objetivo de atrair novos investimentos através de programas junto à governos com incentivos financeiros.
  • Objetivos e justificativas do empreendimento: analisar ganhos ambientais, sociais, técnicos e econômicos.
  • Áreas de servidão: analisar sua necessidade para futuras instalações de apoio e ou expansões.
  • Estéril: definir local para o Depósito Controlado de Estéril (DCE).
  • Avaliação geotécnica: a partir desta avaliação geotécnica é possível definir parâmetros de resistência para diferentes materiais e modos de ruptura. Identificação das estruturas geológicas que poderão representar papel importante na estabilidade dos taludes.
  • Caracterização geomecânica: objetiva conhecer os materiais presentes e determinar suas ocorrências e espessuras.
  • Análise de estabilidade de taludes: determina fatores de segurança mínimos para os taludes da cava final da mina, considerando os diferentes tipos de materiais, tipos de rupturas possíveis de ocorrência, condições geométricas e hidrogeológicas.
  • Dimensionamento das vias internas de acesso:  é importante projetar a rampa interna da mina com operação segura e eficiente do equipamento a ser utilizado. A rampa é desenvolvida à medida que a mina se aprofunda, interligando os diversos níveis.
  • Frota de equipamento: conjunto de equipamentos de mina que serão necessários para atender ao plano de produção projetado para a mina. Os equipamentos deverão ser adquiridos concomitantemente com as necessidades operacionais, ou estrategicamente com maiores riscos.
  • Mão de obra para a mina: refere-se ao quantitativo de pessoal para os regimes administrativos e de turno, e treinamento necessário.
  • Plano de controle de impactos ambientais: tende a minimizar e controlar os impactos do empreendimento, a partir da avaliação de impactos dos meios físicos, biótico e antrópico. Faz parte deste plano “programa de gestão de riscos e plano de atendimento a emergências.”
  • Saúde e segurança ocupacional: estabelece a base para avaliação, controle e monitoramento dos riscos das atividades da empresa, servindo de base a seus programas e metas de gestão da segurança do trabalho e saúde ocupacional, e se aplica especialmente à fase de produção mineral.
  • Plano de fechamento de mina: prevê o fechamento da mina quando de sua exaustão. Apresenta plano executivo com diretrizes e orientações para a fase de desativação da cava da mina, instalações industriais, pilhas de estéril e demais infraestruturas.
  • Reabilitação de áreas degradadas: os trabalhos de reabilitação das áreas degradadas deverão ser planejados e implantados na conformidade do uso futuro que se pretende para as mesmas e considerando as suas características geológicas e pedológicas para definição de procedimentos operacionais que serão suportados por avaliação prévia da adequabilidade das espécies vegetais a serem utilizadas. Consultas às comunidades próximas são necessárias para apoio ao projeto.

DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO FEL

Podemos avançar com as estratégias de ação sequencial e em paralelo e as atuações com foco aversão e alavancagem de riscos. O FEL  potencializa o nivelamento e o agrupamento dos serviços, de acordo com o seu estágio de maturidade, proporcionando segurança à direção executiva da organização e os investidores  para a tomada de decisão referente à autorização do investimento.  Em mineração pode-se trabalhar com os FEL’s sequencialmente, e em paralelo.

Modelo FEL Sequencial

Neste há transição entre as fases do FEL (Figura 04) que deverão ser validadas no contexto da gestão do portfolio de empreendimentos da empresa. Para isso, entre as fases são identificados os já mencionados portões de passagens, que permitem definir se os estudos do empreendimento avançam ou não para as etapas seguintes. Exige-se uma aprovação se o projeto continua ou é interrompido, ou mesmo  para  se solicitar maiores informações para a tomada de decisões.

Do ponto de vista conceitual, este modelo seqüencial da FEL adiciona valor ao projeto, com o objetivo de manter-se este valor durante a fase de desenvolvimento da engenharia detalhada e construção, para que durante a fase de operação e manutenção o projeto selecionado e aprovado pelos portões de passagens produza o valor planejado (esperado) atendendo as expectativas da empresa.

 

img5 

   Figura 04: Modelo Sequencial – FEL

Modelo FEL Paralelo

O Modelo FEL Paralelo requer do gerenciamento a decisão de assumir maiores riscos para atingir a produção em menor prazo. Com uma boa gestão, pode permitir a coordenação e desenvolvimento em paralelo das diferentes especialidades de projeto e desenvolvimento de produto de forma a extrapolar as limitações das mediações contratuais e criar uma nova disposição de cooperação técnica entre os projetistas.

A escolha desse modelo paralelo (Figura 5) pode ser tanto melhor se houver um processo independente de avaliação que aponte se o esforço que está sendo feito até o momento de cada fase em paralelo atende ao que foi estabelecido pela gestão da empresa.

img6

  Figura 05: Modelo Paralelo – FEL

 

RISCOS

Aversão a Riscos: Modelo Sequencial

Um exemplo de investidor de aversão a riscos é a Rio Tinto – Exploração. É uma empresa líder internacional envolvida em cada estágio da produção de metais e minerais. Seu grupo é formado pela Rio Tinto plc que possui ações negociadas na Bolsa de Valores de Londres e pela Rio Tinto Limited, com ações negociadas na Bolsa de Valores da Austrália.

O grupo Exploração, dentro da Rio Tinto tem a função de aumentar o valor da companhia descobrindo ou adquirindo novos recursos minerais. Envolve a identificação, priorização e verificação de alvos geológicos, geoquímicos e geofísicos.

A operação de exploração da Rio Tinto é organizada em três equipes regionais: Américas, Austrália e África-Eurásia. No final de 2009, o grupo explorava ativamente em 17 países e avaliava oportunidades em outros 19 países para uma gama de produtos : bauxita, cobre, carvão de coque, diamantes, minério de ferro, níquel e urânio.

A pesquisa mineral da Rio Tinto possui 5 portões:

  • Seleção da área: Decisão sobre onde explorar – avaliações de dados geológicos, geoquímicos e geofísicos para encontrar áreas com potencial de depósitos. São avaliadas as questões de segurança, saúde, meio ambiente, riscos técnicos e políticos, com estudos de campo.
  • Identificação do alvo: Determinação da existência de um depósito – Busca de acesso ao terreno, avaliação da mão de obra local, realização de mapeamento geológico.
  • Verificação do alvo:  Avaliação da natureza da mineralização – com escavações e sondagens, e detalhamento de dados ambientais e sociais.
  • Delineamento do recurso: Determinação do tamanho do depósito, grau e metalurgia – Detalhamento das sondagens, análises, recursos.
  • Avaliação de recurso a nível de viabilidade: Avanço das sondagens, análises, testes, rota de processo, engenharia. Julgamento sobre se o depósito será economicamente viável.

Finalizando a pesquisa mineral com definições do depósito mineral o projeto é encaminhado para a área de produção mineral.

O tamanho do investimento da Rio Tinto em exploração mineral é de acordo com a qualidade da oportunidade e risco de projeto somado a avaliações das perspectivas  em longo prazo para o produto.

No período de 1990 – 2009, a Rio Tinto anunciou as descobertas de depósitos minerais. (Figura 6), conforme quadro a seguir. Neste início de ano de 2013 foi anunciado uma perda financeira de US$ 14 bilhões com a redução do valor da divisão de alumínio e os ativos de carvão em Moçambique. Mas todas grandes empresas de mineração no mundo vem enfrentando grandes dificuldades, principalmente a partir da crise iniciada em 2007 – 2008.

img7

Figura 06: Descobertas da Rio Tinto, Exploração 1990-2009

           Fonte: Boletim Informativo Exploração Rio Tinto

Warren Buffett

Para reforçar o conceito de aversão a riscos e obter uma visão do investidor podemos utilizar os ensinamentos de um dos maiores empresários do mundo. Em julho de 1999 Buffett  proferiu uma palestra em Sun Valley na cidade de Hayley, um resort em um antigo centro de mineração, Idaho, EUA, sobre Mercado de Ações. Havia muita pressão para que o fundo que administrava adquirisse ações de empresas de novas tecnologias. Mas ele mostrou que novas tecnologias não tornaram os investidores mais ricos com os exemplos:

-  Havia 200 companhias de aviação, entre 1919 – 1939, e o conjunto de todas as ações investidas rendeu zero dólares.

- Existiam duas mil companhias automobilísticas nos EUA no início do século XX, apenas três sobreviveram.

A história dos negócios estava cheia de novas tecnologias como as estradas de ferro, o telégrafo, o telefone, a energia elétrica, no entanto, quantas delas haviam tornado os investidores mais ricos?

Em 10/03/2000 o índice da Nasdaq, Bolsa Eletrônica de Nova York, onde são negociadas as empresas “ponto com” superara os 5.000 pontos mais do que dobrando em um ano, mas a partir daí perdeu 75 % do valor. Foi o estouro da bolha ponto com. E Buffett acertou mais vez.

Em 2.002 na carta aos acionistas do Berkshire Hathaway Buffett chamou atenção para os produtores de casas pré-fabricadas nos Estados Unidos que começaram a vender seus empréstimos por meio de uma “obrigação lastreada em outra dívida” alavancando em 100 dólares para cada dólar de capital. Chamou esses derivativos de “tóxicos” e disse que eram “bombas – relógio” que estavam se alastrando sem controle e que podiam causar uma reação em cadeia de desastres financeiros – o que veio acontecer e estamos vivendo esta crise nos dias atuais.

O método FEL sequencial trabalhado neste artigo pode dar mais visibilidade para investidores que tem aversão a riscos como Warren Buffett.

Alavancagem de Riscos: Modelo Paralelo

A proposta deste modelo é reduzir os prazos de produção mineral de um projeto de mineração, mas nesta redução aumenta-se os riscos. Enquanto que o modelo sequencial exige de 10 a 20 anos para uma produção, se for conduzido os FEL’s em paralelo objetiva-se a produção em 3 a 5 anos. Para atingir esta meta ao iniciar o FEL Pesquisa Mineral já considera-se que o sucesso será atingido e inicia-se o FEL Produção Mineral. Se o depósito mineral for pequeno, insignificante, o empreendedor arca com o prejuízo, ou vende para um empreendedor em que a escala de negócios permita a continuidade do projeto.

Recentemente um grupo empresarial iniciando a pesquisa de minério de ferro de baixo teor, já pressupondo a necessidade de transporte por mineroduto contratou a aquisição de bombas e tubulações – ítens que poderia estrangular as metas de implantação de produção mineral no prazo de 3 a 5 anos. Estas estratégias sempre existiram no mundo e podem ser alavancas quando bem sucedidas, ou prejuízos quando não se viabilizam. 

O nível de conhecimento de um depósito mineral, FEL Pesquisa Mineral, avança de OCORRÊNCIA – RECURSO INFERIDO – RECURSO INDICADO – RECURSO MEDIDO – RESERVA PROVÁVEL – RESERVA COMPROVADA. Este conhecimento significa investimento de risco. Os ativos minerais tem condições de ser valorizados “in situ”, na natureza onde foram gerados, antes da produção. É uma realidade que cria grandes riquezas, mas que deve ser reduzidas as incertezas.

Se considerarmos um depósito de minério de ouro desde o conhecimento a nível de ocorrência caminhando até reservas (FEL Pesquisa Mineral) e depois FEL Produção Mineral onde o ouro é produzido em barras, tem-se um caminho até o lastro. O ouro físico é a “moeda” mais aceita no mundo. Este depósito pode ser valorizado em cada etapa do avanço do projeto que avança para a produção física. E um empreendimento deste pode ser realizado no FEL Sequencial ou em Paralelo.

Talvez uma abordagem dos derivativos no mercado financeiro possa ser mais explicativo do que teorizar o conceito de alavancagem em mineração, mostrando seus riscos. Os derivativos constituem o melhor exemplo de alavancagem. São marcos  recentes os anos de 1973, 1994 – 1995, e 2007 – 2008 onde eventos fizeram história. Adiantando as conclusões, a alavancagem sempre existiu e existirá, pois faz parte do comportamento humano.

Um derivativo, como conhecido atualmente no mercado financeiro, vai se desdobrando em outros, distanciando do lastro – base e aumentando o risco do investimento. A pesquisa mineral, pode ser visualizada ao contrário: parte do maior risco e ao avançar vai agregando valor aproximando do lastro – base. Se um investidor puder acompanhar os resultados da pesquisa mineral com um método como o FEL e apoiado nas normas internacionais, ao investir no FEL Pesquisa Mineral o risco é grande, mas à medida que avança o risco vai diminuindo aproximando do lastro – base, conforme figuras 7 e 8, a seguir.

 img8

Figura 07: Desdobramento de um derivativo que ao distanciar do lastro (base), aumenta o risco do investimento.

 img9

Figura 08: Desdobramento de uma Pesquisa Mineral que tem maior risco no FEL 1 e ao avançar mais próximo do lastro vai agregando valor reduzindo o risco.

Ao seguir o método FEL o investimento em FEL 1 tem maior risco e maior ganho se houver confirmação final de um depósito mineral.

O conceito de derivativo pode ser útil para aprofundar o conhecimento da alavancagem de riscos, que existe desde os primeiros tempos da nossa história, e principalmente na pesquisa mineral.  Quando um egípcio comprava uma safra futura com valor prefixado no presente, estava trabalhando com derivativo. Aristóteles contou que o filósofo grego Thalus, sem muitos recursos, prevendo uma grande safra de olivas, adquiriu a valor presente a utilização das prensas de olivas para produção de azeite no próximo ano, e cobrando o que o mercado aceitou obteve grandes lucros.

Um dos melhores exemplos do perigo dos derivativos foi a super – valorização (bolha) das tulipas que quebrou a Holanda no início do século XVII.

Existem derivativos que são muito utilizados como a compra de um imóvel, opcionando pagamentos antecipados e dando condições de venda do contrato. Contratos para entregas futuras a preços especificados são também derivativos.

Derivativos são contratos com opções. Quanto vale uma opção ? Depende do tempo, preços, taxa de juros e volatilidade (riscos). Para Peter L. Bernstein “o produto das transações com derivativos é a própria incerteza”.

Os derivativos alavancaram as bases para administração dos riscos a partir do ano de 1.973 com a edição de maio – junho do “Journal of Political Economy” onde Black e Sholes publicaram um modelo, com matemática avançada, que quantificavam as opções no tempo. Seis meses após esta publicação a Texas Instruments publicou um anuncio de meia – página no “Wall Street Journal” : “Agora você pode encontrar o valor de Black – Sholes usando nossa … calculadora”.

Somando a estes eventos estruturantes a Chicago Board of Trade, já tradicional centro de negociações de commodities iniciou, no seu salão de fumar, em abril de 1.973, a Chicago Board Opcions Exchange, fornecendo pela primeira vez aos negociantes de opções de ações contratos padronizados e liquidez para a compra e venda de opções, prometendo rápida regulamentação e rapidez na informação pública de todas as transações.

E neste ano de 1.973 o Fundo Monetário Internacional em reunião na Jamaica ratificou as taxas flutuantes do cambio, uma vez que os Estados Unidos acabaram com o lastro do ouro dois anos antes    . E, mais uma vez, em 1.973 houve a volatilidade dos preços do petróleo inaugurando as incertezas generalizados nos preços das commodities. Os dirigentes das empresas, como os agricultores que trabalham com os eventos voláteis da natureza, adicionaram os derivativos.

Em novembro de 1.994, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve Board, USA, declarou : “Existem pessoas que acham que o papel do supervisor do banco é minimizar, ou mesmo eliminar, seus fracassos; mas essa visão é equivocada, em minha opinião. A disposição em assumir riscos é essencial ao crescimento de uma economia de livre mercado … Se todos os poupadores e seus intermediários financeiros investissem somente em ativos livres de riscos, o potencial de crescimento das empresas jamais se realizaria.”

Wall Street, como um viveiro de inovações criou novas unidades em derivativos e surgiram engenheiros financeiros desenvolvendo produtos de administração de riscos relacionados a taxas de juros, moedas, commodities, índices de bolsas de valores. Em 1.995 já havia duzentas empresas com valores “nocionais” de US$ 18 trilhões sendo que US$ 14 trilhões concentrados em seis grandes bancos. Valor nocional é o valor total de cada contrato de derivativo.

O BIS – Bank for Internacional Settlements, em 1.995, calculou em US$ 41 trilhões o valor nocional dos derivativos no mundo, expandindo os existentes nos Estados Unidos, mas excluindo os negociados em Bolsas organizadas. E concluiu que se cada parte obrigasse o resgate imediato o prejuízo dos credores poderia chegar a US$ 1,7 trilhões ou 4,3 % do valor nocional. Até esta data poderia haver controle dos derivativos. Porém James Morgan do Financial Times já avisava : “Um derivativo é como uma lâmina. Você pode usá-la para se barbear … Ou pode se suicidar com ela.”

Peter Bernstein concluiu seu livro “Desafio aos Deuses”, original de 1.996, otimista com a criação da administração de riscos. Mas o desenvolvimento do computador e da internet turbinaram os derivativos com as transações virtuais deixando-os cada vez mais distante do lastro e mais perigoso, pois quanto maior a possibilidade de lucros, maiores os riscos.

A  partir de agosto de 2.007 foram detectados grandes problemas no mercado financeiro americano, eclodindo em 2.008 com a falência do banco de investimentos Lehman Brothers, uma tradicional instituição. Foi denominada a crise do subprimes – hipotecas de alto risco concedidas a clientes de baixa renda para a compra de um imóvel. O grande desequilíbrio com ofertas de créditos imobiliários criou um efeito em cascata,  provocando danos que vivenciamos até hoje.

Mesmo com esta crise atual os derivativos vão continuar a existir e seus valores no mundo é bem superior ao da produção física de bens.

O escândalo da Bre-X em 1997 e probabilidade da descoberta em mineração são destacados na alavancagem dos riscos para mostrar a necessidade das normas e evitar danos ao setor de mineração, similar ao que ocorreu com derivativos nos Estados Unidos. A pesquisa mineral sempre foi uma atividade de riscos. A partir de 2.005 com o boom mineral aumentou o número de investidores e a busca por resultados rápidos, o que pode levar a aumento dos insucessos no setor.

Bre-X -1997

Em 1993, um grupo de empresas canadenses (Bre-X, 2010) adquiriu uma propriedade em área de floresta junto ao rio Busang, em Borneo, na Indonésia. A primeira estimativa de recursos foi da ordem de dois milhões de onça troy de ouro (uma onça equivale a 31,1 gramas). Em 1995 já atingia 30 milhões de onças, em 1996 eram 60 milhões e em 1997, segundo estimativas de uma conhecida consultoria independente do Canadá, 70 milhões (2.177 t de ouro contido). Neste mesmo ano, relatórios elevavam para 200 milhões de onças troy (mais de 6.000 toneladas de ouro).  A ação da Bre-X atingiu a cotação de CA$ 280, o que representava um valor da empresa de US$ 4.4 bilhões (bem acima dos US$ 3,3 bilhões obtidos no leilão do controle da Vale em 1997). 

Grandes empresas, como a Placer Dome, tentaram adquirir a Bre-X, mas o governo indonésio do presidente Suharto se envolveu no caso e exigiu que o controle ficasse com a grande mineradora canadense Barrick Gold, em associação com sua filha, Siti Hardiyanti Rukmana. A Bre-X buscou apoio em outros dois filhos do presidente e vendeu seus direitos (45%) à Freeport-McMoRan em 17/02/1997. Em um mês a fraude foi descoberta por esta empresa americana: testes em amostras-chave revelaram que havia quantias insignificantes de ouro na área, e mais, o ouro nas amostras não era do local.

O escândalo provocou uma reação das bolsas de valores internacionais, que editaram normas e auditorias para creditar conteúdos minerais e diferenciar recursos de reservas.

A PROBABILIDADE DA DESCOBERTA EM MINERAÇÃO

Descobrir um depósito mineral é uma atividade de risco.

O quadro mostra números percentuais de um período de 26 anos (1988 – 2013) e compara com 2010, 2011, 2012 e 2013. A probabilidade de uma área requerida chegar a uma concessão de lavra é em média de 1,1%, conforme os dados a seguir.

img10

Fonte: www.dnpm.gov.br

O quadro não contém as minas em operação, que efetivamente deve suceder às concessões de lavra. Em número, minas são muito inferior às concessões de lavra.

A De Beers confirma esta probabilidade com divulgação das suas descobertas.

img11

Estatística Histórica – Diamantes no mundo(2001) 

A Rio Tinto considera que a probabilidade de uma grande descoberta, e mais, por uma empresa de grande porte atuante em mineração, é de 0,03%. Ou seja, para cada 3.000 alvos que entram no funil, apenas uma chegaria ao estágio de avaliação detalhada, quando o objetivo é conseguir depósitos de N1 – são os que impactam a produção global devido ao seu tamanho e características.

VALORAÇÃO DE DEPÓSITOS MINERAIS

No ano 2.000 a De Beers publicou o quadro a seguir valorando seus depósitos minerais em US$ 82,6 bilhões. Em um cálculo simples está multiplicado o valor médio do quilate de diamante bruto na produção (US$ / ct) pela reserva em milhões de quilates (Reservas Cts/million) – o que não é suficiente para convencer um investidor.

Ao risco geológico deve ser acrescentado os riscos tecnológicos, econômicos, ambientais e políticos. A administração destes riscos permite a valoração da pesquisa mineral em suas diversas fases e dos depósitos minerais. É uma possibilidade real com as normas internacionais e um método como o FEL, dando mais confiança e controle ao investidor, aos órgãos governamentais.

 

img12

 

A pesquisa mineral é o início de um grande fluxo de produção. A descoberta de um depósito mineral viabiliza a implantação de uma produção gerando produtos para a indústria de transformação, de insumos que sustentam nossa civilização.

A partir de 2.001 com a implementação das normas internacionais passou a ser regulamentada a apresentação de projetos de mineração para os investidores e o público, com diretrizes de forma, de precisão dos dados, os tipos de métodos aceitos para os estudos, as qualificações e certidões necessárias para pessoas e empresas responsáveis.

O CSA – Canadian Securities Administrators, como exemplo, reúne entidades ligadas a regulamentações sobre fundos de investimentos, bolsas de valores, títulos públicos. Possui um órgão responsável pela guarda de documentos de empresas com ações na Bolsa de Valores do Canadá: “The System for Eletronic Document Analysis and Retrieval” – SEDAR (Sistema Eletrônico de Recuperação e Análise de Documentos), que pode ser acessado no site www.sedar.com . Existem vários projetos de mineração disponíveis, desde alvos poucos trabalhados, mas com potencial, a grandes projetos de implantação.

Estas normas que conseguiram dar mais segurança aos profissionais do setor de mineração na gestão dos projetos, agora podem ser acrescidas de um método como o FEL para criar confiabilidade aos investidores.

As empresas de mineração e investidores, por sua vez, estão em condições de avaliar melhor seus ativos, desde alvos com potencias a depósitos minerais e criar valores.

CONCLUSÕES

A competição acirrada, margens de lucros estreitas, avanços tecnológicas constantes, mudanças políticas e regulatórias conduz a um cenário que induz o setor de mineração a trabalhar com prazos menores, recursos financeiros cada vez mais difícil, maiores riscos. Nesse contexto a gestão de projetos de mineração torna-se um diferencial nas empresas.

A pesquisa mineral sempre foi uma atividade de riscos. A partir de 2.005 com o boom mineral aumentou o número de investidores e a busca por resultados rápidos, o que pode levar a aumento dos insucessos no setor.

A implantação de um projeto mineral exige planejamento, e quanto mais bem trabalhado, com equipe experiente e envolvida, pode atingir a produção com melhor relação custos / benefícios. Estudos de gestão de projetos desenvolvidos e aprimorados no                           IPA – Independent Project Analysis, Inc. – USA denominado de FEL – Front End Loading é um método que difundiu no mundo obtendo maior entendimento principalmente entre gestores e investidores.

O modelo a ser explicado no desenvolvimento e gestão de projetos em mineração aqui proposto baseia na aplicação do FEL em dois momentos: para descobrir um depósito mineral; e para produção mineral. O primeiro FEL exige maior risco, e o segundo pode ser sequencial, ou, em atividades paralelas com o primeiro. São dois modelos de atuações em pesquisa mineral com suas características especiais.

As normas para projetos de pesquisa mineral se consolidaram a partir de 2001, sendo exigência em financiamentos internacionais. Destaque foi dado à NI 43 – 101 do Canadá e à JORC – Joint Ore Reserves Committee, da Austrália. As normas e o método FEL buscam transparência, materialidade e competência na gestão dos projetos de mineração, o que pode favorecer e dar melhores condições de financiamentos ao setor propiciando mais segurança aos investidores.

A pesquisa mineral pode ser visualizada como um derivativo de mercado financeiro, mas com fluxo inverso em relação ao lastro. A tendência dos derivativos é afastar do lastro de referência. A pesquisa mineral avança para o lastro. Ao seguir o método FEL o investimento em FEL 1 tem maior risco e maior ganho se houver confirmação final de um depósito mineral.

 img13

img14

 

A possibilidade de utilizar o método FEL, principalmente na pesquisa mineral, permitiria uma comunicação factual com investidores mostrando em que estágio se encontra um projeto que trabalha com as incertezas que existem na natureza.

BIBLIOGRAFIA

ANGIOLETTI, Stéfano Maria Falsini. Proposta de uma metodologia para suporte a decisão de investimentos em portfólio de projetos de pesquisa geológica: abordagem através do Modelo de Opções de Preços de Black e Scholes e Simulação de Monte Carlo. Dissertação de Mestrado. Departamento de Engenharia de Produção. UFMG. 2009.

BANCO MUNDIAL: HTTP://www.worldbank.org. Acesso em 15 de Janeiro de 2013, 10h30.

BERNSTEIN, P. L. Desafio aos Deuses. Rio de Janeiro. Ed. Campus, 1997.

BOLETIM INFORMATIVO EXPLORAÇÃO, Rio Tinto, Janeiro de 2011.

BRASIL, H. Avaliação Moderna de Investimentos. Qualitymark Editora. Rio de Janeiro, 2002.

Bre-X, http://en.wikipedia.org/wiki/Bre-X. Acesso em 16 de Janeiro de 2013, 9h43.

De Beers. Relatório Anual 2001 no Brasil. Inédito.

DNPM. www.dnpm.gov.br. Acesso em 15 de Janeiro de 2013, 14h27.

FARIAS, Carlos Eugênio Gomes. Mineração e Meio Ambiente no Brasil. Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento, 2002.

IPA – Independent Project Analysis Inc – USA. www.ipaglobal.com

JORC – AUSTRALASIAN CODE for Reporting of Explorations Results, Mineral Resources and Ore Reserves. The Jorc Code. Austrália, 2012.

MORAES, Fernando Romero Galvão. Proposta de contribuição ao estudo da concepção de projetos de capital em mega empreendimentos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós Graduação em Construção Civil. UFMG. 2010.

NI 43-101 Padrões de Divulgação de Projetos Minerais, Formulário, Relatório 43-101F1 técnicas e relacionadasNI 43-101 Standards of Disclosure for Mineral Projects, Form 43-101F1 Technical Report and Related Consequential Amendments, 24 de junho de 2011 Chapter 5Regulamentos e Políticas Rules and Policies, June 24, 2011, http://www.ccpg.ca/profprac/en/Documents/ni_20110624_43-101_mineral-projects.pdf. Acesso em 14 de Janeiro de 2013, 15h37.   C

SCHROEDER, Alice. A Bola de Neve – Warren Buffett e o Negócio da Vida, tradução de Fabiano Morais, Lívia de Almeida e Marcelo Lino, Rio de Janeiro, 2008.

 

AGRADECIMENTOS

A elaboração deste trabalho recebeu a ajuda de muitos profissionais, e da equipe da Geoconômica Minas Ltda. Em especial agradeço a Cláudio Magalhães, Flávia Savassi e Juvenil Félix.

Rua João Freitas, 19 B. Santo Antônio | Belo Horizonte - MG

Fone: (31) 3296-5880 | FAX: (31) 3296-5710