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Artigos » O Mito de São Jorge

Este artigo foi publicado para comemorar o dia de São Jorge (23 de abril) e posteriormente publicado no Editorial – jornal “Estado de Minas”, em 28/05/96

O Mito de São Jorge

“…O QUADRO DE SÃO JORGE É o conflito internalizado de um combate…”

Jorge P. Raggi*

Existiu realmente o Jorge da Capadócia região desértica no centro da Turquia. Montou um fogoso corcel branco e foi apoiar o Imperador Romano Diocleciano. Mas tornou-se cristão, e a Imperatriz Alexandra apaixonou-se por ele. Jorge enfrentou o Imperador publicamente, e por sete anos, na cidade de Sidon, foi torturado por vários suplícios, sobreviveu a todos e morreu decapitado em torno do ano 290 d.c. Apareceu o mito. Enfrentou um dragão que assolava uma região, no momento que a prenda exigida era uma princesa.

O mito universalizou-se através dos tempos e geograficamente. No escudo dos cavaleiros das Cruzadas, em moedas na Itália, Inglaterra. Na Rússia, Armênia, Geórgia, Portugal, Espanha, Grécia, Cuba. O Brasil tem São Jorge na boêmia, nos bares, terreiros espíritas e igrejas.

No primeiro milênio a.C. havia também este mito com grande universalidade. A maior manifestação de arte dos etruscos é uma escultura do monstro Quimera. O herói grego Belerofonte (aquele que é cheio de força), no cavalo alado Pégaso, lutou e venceu a Quimera. Com a vitória teve a filha de lóbate. O mitólogo Junito Brandão diz que “Quimera” é sinônimo de “imaginação perversa”, e o inimigo combatido pelo herói está no inconsciente, o perigo monstruoso que todo ser humano possui etente dentro de si.

Uma interpretação mitológica consiste em tentar clarear conteúdos de forma livre, sem preocupações com a lógica e a “realidade aceita”. O quadro de São Jorge pode ser o conflito internalizado de um combate, com um quatérnio: Jorge (masculino), princesa (feminino), Corcel (fogo criador), Dragão (o mal). O quatérnio traduz completude, na mitologia. Em diferentes épocas e regiões, os artistas transformam os quatros componentes em três. Quando o masculino se funde com o feminino , o Jorge é andrógino e não se representa a princesa. Quando cavalo funde com dragão,saem chamas nas narinas do cavalo e ele exibe uma expressão de dragão. Se a fusão aumentar e atingir dois componentes, aparecer o centauro: o homem-animal, incontrolável, e, ou, a centaura: mulher devoradora. Se a fusão for total é a flecha que voa para o alvo que se quer atingir. Esta transformação foi destruidora no mito grego de Belerofonte, mas pode ser salvadora na evolução do mito de São Jorge.

Sempre tentamos separar o bem do mal, e ainda recalcar, esconder, denegar o mal. Historicamente o ser humano foi muito violento, e atualmente estamos assustados com a tomada de consciência do mal. Mas a conscientização é um caminho para vencê-lo, junto com o conhecimento da nossa natureza animal, o centauro. Estes dois movimentos já estão em cursos: informações mais completas e detalhadas do mal, levantando cada vez mais dados; e a consciência corporal, não no sentido de embelezar o corpo, mas de conhecer nossa natureza animal, o que realmente somos.

Fernando Pessoa, na poesia Eros e Psique, diz que é preciso vencer o mal e o bem (conscientizar) para que o Príncipe veja que ele é a Princesa Adormecida. E Rodin, na escultura Centaura, mostra a saída da natureza animal para a flexa consciente.

Se este vôo foi muito alto, há uma sugestão prática: os assaltantes são devotos do santo. Uma imagem, um quadro, como cumplicidade na devoção, pode levar o assaltante a desistir da ação. Dizem que não é bom ofender o Santo.

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