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Artigos » Mudanças Sociais

MUDANÇAS SOCIAIS 

jorgeraggi@geoconomica.com.br    jan.2020

Estamos em mudanças comportamentais de bases na sociedade que poderá afetar muito o modo como trabalhamos. Há sinalizações de alguns marcos que revelam essas mudanças em curso. O Festival Woodstock Music & Art Fair, 1969, em Bethel, estado de Nova Yorque, Estados Unidos, pode ser visto como exemplo de liberdade sem consciência, o que gera medos. Mas ocorreu há 50 anos e impulsionou a liberdade jovem. Não foi repetida. Ultrapassou limites. A juventude passou a ser mais ousada e poderosa.

A internet é um exemplo que poderia dar mais liberdade. É dominada por jovens. Infelizmente a redirecionamos e a utilizamos para nos autoescravizarmos mais. Por exemplo, o desejo de criar unicórnios a partir de startups autoescraviza uma grande quantidades de jovens no mundo inteiro. A ambição é por sucesso, dinheiro, poder. Seria fundamental para sonhar com mais realidade se fossem levantados, aproximadamente, os números de todos que tentam e dos que conseguem. Muitos de nós estão conectados 24h por 7 dias/ semana por 365 dias por ano, conhecido por 24 X 7. Utilizar a internet com liberdade consciente e responsável é para poucos.

Uma leitura de Y. N. Harari em “Sapiens” sinaliza que nós sempre buscamos nos escravizar para a organização social. A Revolução Agrícola pode ser um marco, em torno de 12 mil anos.  Nossa organização social se sustenta com o dever. Mas aumentamos tantos os deveres, muitos deles até contraditórios com a realidade atual, inculcados desde a infância, que esse modelo pode ser um paradigma que esgotou. Um novo seria a liberdade consciente responsável? A liberdade é ainda percebida como desorganizadora. A liberdade com consciência é sadia, é evolutiva. Encontrar o seu próprio caminho exige mais coragem na vida. O paradigma atual é o dever – seguir os outros. A proposição do novo paradigma é ousar mais a liberdade consciente, seguir a si mesmo e desenvolver a consciência.

Cada um de nós faz a gestão da própria vida, consciente e na maior parte inconsciente. Criamos uma falsidade ao nos definimos como seres conscientes. Não somos! Há muito pouca consciência. A sociedade somos nós. É a projeção do que somos. Os noticiários de um só dia mostram a violência com que nos autoagredimos e por projeção agredimos nossos semelhantes. Se conseguirmos encontrar uma via de conhecimento para reduzir a autoagressão podemos abrir espaço de maior desenvolvimento consciente e menor violência. As energias que dirigimos para autocontroles rígidos, deveres, podemos redirecionar para mais consciência, liberdade responsável, e principalmente sem culpas. Essas condições propiciam maiores produtividades. Podemos utilizar a gestão de si mesmo para avançar, e também perceber que mais e mais deveres tornam a vida insuportável.

A nossa escravização possui uma das âncoras no pensar. Uma pessoa, em média, tem em torno de 50 pensamentos por minuto (1). E a maior parte deles é de autoagressão. Esse comportar inconsciente está na base de nossa organização social.  Criamos o dever (“eu devo …”), autocondenações, martirizações. É essa perda de energias que pode ser extinta. A violência que tanto nos abala seria projeção do que criamos no inconsciente. É ainda predominantemente inconsciente. Desconhecida.

Com o dever ditatorial e entranhado podemos criar uma divisão virtual de si mesmo como organização da sociedade.

Conheço relatos de pessoas que sentem existirem em si mesmo vários “eus”. Eu só conheço em mim dois “eus”. Uma divisão psíquica em dois, Eu Real e Eu Social, foi adotada por Karen Horney em “Self – Analysis”, original de 1942, traduzido como “Conheça-se a Si Mesmo”. A médica psicanalista por sua vez se apoiou em William James (1842-1910). Vou utilizar essa estratégia de trabalhar com esses dois “eus”, sendo um real, animal ou humano e o outro virtual, construído inconscientemente. Esse Eu Social não tem existência na realidade mas com ele organizamos a sociedade.

Um estudo em manuais de “Terapia Cognitivo – Comportamental” (2) mostra como nos autoagredimos com os denominados “pensamentos automáticos” e “crenças”, como exemplos: “eu sou incompetente; eu não tenho valor; eu com certeza vou ser abandonado.” Se considerarmos que temos, em média, quase um pensamento por segundo daremos conta do autobombardeio destrutivo. Esses comportamentos (respostas) são virtuais. Não condizem com a realidade no estado presente em que vivemos. Não é ainda inteiramente percebida para alterarmos as respostas comportamentais. A proposição de mudança seria aprendermos a agir com integridade psíquica. Muitas pessoas nas percepções de si mesmo sentem falta de um centro integrado. Vêem-se divididas. E mais, percebem que partes de si estão em confronto com outras. Esse é um mundo virtual. Pode ser fantasia, mas se impõe mais do que a realidade.

Em exemplos de gestão de si mesmo, vide I, II, e III.  As personagens e pessoas citadas têm o psíquico dividido em duas partes: uma que quer agir com liberdade e outra que obstrui o que queremos ser: Eros e Tânatos.  Ao estudarmos questões complexas, primeiro precisamos de reduções para avançar.

A proposição de integração psíquica seria: Se conseguíssemos uma integração psíquica desses dois “eus”, teríamos maior produtividade na vida? Ou se reduzirmos o poder do Eu Virtual, o Eu Real se desenvolveria mais e melhor?

Essa gestão de si mesmo para a integração é desorganizante até que o próprio eixo seja encontrado. Ser dono de si mesmo, consciente, ter toda liberdade da ação e não mais um agir por dever, pode ser um novo paradigma para os tempos atuais de complexidades e transparências. Se conseguirmos reduções dos níveis de ansiedades, o processo pode ser considerado válido. A ansiedade tem uma das definições como medo de ter medo. Criamos isso na maior parte inconsciente. Fazemos todo um comportar autodestrutivo para afastar a liberdade de ação – temos medo de ser livre.

Uma criança nasce integrada e ao evoluir aprende a se dividir no psíquico. Aprende a se dividir, inconsciente, talvez como um modo de se inserir na sociedade. Criamos o dever, melhor, os deveres, e com eles nos autoescravizamos. Se desaprendermos essa divisão psíquica, inconsciente, e aprendermos a nos integrar consciente, poderá ser mobilizada uma grande energia que é dispersa no modo como dividimos o si mesmo para nos organizarmos na vida. Desaprender, nesse caso, a extinção do comportamento de divisão do si mesmo. Se criamos, aprendemos a nos dividir, talvez seja possível nos integrarmos e redirecionar a energia que estamos perdendo internamente.

Inserirmo-nos na sociedade cumprindo deveres, poderia ser viável se os deveres não tivessem aumentado tanto. Conhecer as emoções, sem medos e com coragem pro – ativa, com liberdade consciente e responsável seria um novo paradigma na evolução humana. A gestão do si mesmo pode alavancar muito esse caminho que pede ousadia. Pode-se começar como no budismo zen, sem fazer nada diferente das ações cotidianas. Só mais atenção às essas ações. À medida de maior consciência exercitar concedendo maior liberdade a si mesmo – tentar reduzir as autocondenações. E por extensão, por projeção, ao próximo. Exercitar consigo e com o próximo a empatia, a compreensão e a persistência nas ações. Assim, estará por internalização em uma gestão de espiral crescente de liberdade consciente, responsável, sem culpas.

 

MÉTODOS

Desenvolvi esse conhecimento de gestão de si mesmo com meditação e autoanálise (conforme proposto pela psicanalista Karen Horney) durante o meu período universitário. Depois, acrescentei psicanálise em grupo e individual. Budismo zen aplicado a artes marciais. Psicologia Cognitiva e Comportamental. Muito da teoria da evolução. Continuo utilizando esses métodos no dia a dia. E principalmente procuro sentir a vida cada vez mais.

REFERÊNCIAS

(1) Vide na internet: qual o número de pensamentos por minuto?

No meu período universitário fiz esse cálculo, de modo empírico, que envolveu um bom tempo. Encontrei o número médio de 45 pensamentos por minuto.

(2) Um manual de referência é “Terapia Cognitivo – Comportamental” de Judith S. Beck, Ed. Artmed, 2013.

EXEMPLOS DE GESTÃO DE SI MESMO                

(I) Meu próprio exemplo talvez possa esclarecer inicialmente.

Aos vinte anos de idade, eu percebi comportamentos de obstruções em minhas próprias ações. Muitas vezes ao querer uma viagem, ao querer estudar para uma prova, ao querer me divertir, sentia-me obstruído nas ações. Sentia também sono, cansaço, pensamentos difusos e finalmente não conseguia agir. Empurrava para frente no tempo a ação que queria fazer no presente. Ficava frustrado com esse desempenho.

Precisei de muito tempo para perceber que o que denominava obstrução era após sentir “eu vou”, “eu quero”. Se considerarmos esses desejos, como estímulos internalizados, as respostas (comportamentos) eram imediatas, e eu criava, mais inconsciente, com pouca consciência, “eu não vou”, “eu não quero mais”, “não vou ser eu”, “não quero existir”. Mesmo já conhecendo esses estímulos e respostas, sinto que vou precisar de mais tempo até conseguir desaprender, ou aprender a agir só a partir dos estímulos, extinguindo as respostas automatizadas.

Nesse estágio eu alcançaria um bom nível de liberdade consciente e teria ações mais focadas. A violência contra mim mesmo, automatizada, inconsciente, quanto mais reduzir, encontrarei melhor qualidade de vida. Essas são minhas crenças que podem vir a ser confirmadas ou não, ou exigir mais pesquisas com provas. Afinal condicionamentos de 12.000 anos, desde a Revolução Agrícola, de escravidão e autoescravidão, não vão se extinguir facilmente.

II – Literatura:  Frankenstein, Dr. Jekyll and Mr. Hyde

As artes, desde muito tempo, mostram nossa dualidade construída: corpo e espírito. O corpo desprezado e o espírito divinizado. Uma dualidade foi bem representada no livro Frankenstein de Mary Shelley, publicado em 1818. A “Criatura” destrói o médico Frankenstein que a criou. Em outro livro Dr. Jekyll and Mr. Hyde que foi traduzido de modo simplista como “O Médico e o Monstro”, original de 1886, de R. L. Stevenson, Mr. Hyde destrói Dr. Jekyll.

A “Criatura” e Mr. Hyde são as visualizações da nossa natureza que elaboramos, e consideradas como monstruosas. O que não é verdadeiro, mas é uma virtualidade que se impõe. A “Criatura”, no romance, contou para o médico Frankenstein que nascera bondosa, e a sua transformação em “monstro” era devida às muitas rejeições que sofrera, inclusive do seu próprio criador. Mr. Hyde pode ser o medo de liberar o mal. Mas um mal inconsciente e aprisionado pode causar danos maiores.

III– Piaget, Jung, Freud, Darwin.

Em um Modelo de Aprendizagem de Si Mesmo, J. Piaget, escreveu no final de sua vida, em Sabedorias e Ilusões da Filosofia, 1969, uma análise de sua própria experiência pessoal: “Sei bem que o eu é odiável.” E citou ainda André Gide, que disse poder amar o seu eu em um outro, mas não nele mesmo. O Modelo Piaget seria o resultado da aprendizagem de rejeição a si mesmo. Essa expressão é forte, mas, se comprovada, seria uma proposição que explicaria o grande antagonismo entre o Eu Social (ou Virtual) e o Eu Real, criando um Eu conflituoso, violento – sem estar centrado.  Pode ser que assim organizamos a cultura e nela nos inserimos, rejeitando parte de nossa natureza. Essa rejeição com violência pode ser porque não conseguimos até agora lidar com nossa natureza humana integrada.

Andrew Solomon, escreveu O Demônio do Meio – Dia. Uma Anatomia da Depressão, com vários casos, e muito de si mesmo, sem vitimizações.Para ele a maior parte da dor psicológica do mundo é desnecessária. Relatou um fato sobre a interna Angel Starkey, no Norristown Hospital, Pennsylvania, USA, que disse “me cortar é a única coisa que me dá prazer…, prefiro a dor física à emocional.” Quando Angel melhorou, seu sonho era participar de um grande programa de entrevistas na televisão para transmitir a seguinte mensagem “Quero dizer a todo mundo: não se corte, não se machuque e não se odeie.” Essa aprendizagem internalizada de autopunição, de criar uma rejeição às nossas emoções primárias, pode ser uma das bases do autocontrole e do processo de nos inserirmos na sociedade. Aprendemos a rejeitar o que somos. E a nova proposta é conhecer o que somos, nossos potenciais, nossas limitações, e lidar melhor com a inserção social.

C. Jung, no final de sua vida, contou em suas Memórias um fato marcante ocorrido aos 12 anos de idade. Pode ser o Modelo de Aprendizagem Jung. Usou um acidente para não ir mais à escola. Ao perceber seis meses depois o quanto estava fugindo da realidade, obrigou-se a voltar e precisou de muito esforço para conseguir. A sua divisão comportamental entre o não querer ir à escola e o obrigar a ir estava consciente. Sendo assim conseguiu conservar a lembrança dos fatos e das emoções. Logo depois, durante o período da universidade, e por toda a sua vida esteve ciente dessa divisão psíquica. Denominou-as de Nº 1 e Nº 2, e disse se sentir realizado assumindo seu Nº 2 na vida. Jung teve uma vida de muito reconhecimento social.

De um modo muito reducionista e simplista, nesse Modelo de Aprendizagem Jung, o Nº1 poderia ser sua natureza (o não querer ir à escola, ficar brincando), seu Eu Real, por meio da qual recebemos nossa herança da evolução. O Nº 2 seria o Eu Social que criamos utilizando o autocontrole com o objetivo de domar o Nº 1, para que assim possamos nos inserir em nossa sociedade. Essa criação imaginária e virtual, Nº 2, “parece” que assume o poder. O autocontrole – o dever – começa muito cedo. A quantidade de informações que uma criança recebe, assimila e as decisões que precisa tomar podem levá-la a alegrias e ações construtivas, porém em muitos momentos a dores e desesperos.

Aprendemos sobre as necessidades para inserção social desde criança. Cada um de nós domou e continua por toda a vida a domar nosso ser. Aprendemos a ser um Eu Social. Uma aprendizagem futura seria perceber os esforços que fazemos ao criar o Eu Social com violência. Um Eu Real escravizado por um Eu Social virtual pode ser uma das causas do sofrimento psíquico humano, e também de baixas produtividades. Já estamos em condições de criar o Eu Social com menor violência, e com mais harmonia com o Eu Real.

No último Natal de sua vida, em 1938, já na condição de refugiado de guerra em Londres e aos 82 anos, S. Freud escreveu A Divisão do Ego no Processo de Defesa. Seria o Modelo Freud, sua aprendizagem e o que projetou nas pessoas. Entendo que Freud adotou um tom muito intimista, como se estivesse falando de si próprio quando criança. Escreveu que diante de um conflito entre seu desejo e uma realidade que ameaça, uma criança aprende a rejeitar a realidade e para sublimar o medo cria um sintoma patológico. Paga o preço de uma fenda no próprio eu, sem cura, que aumenta no evoluir da vida. Nesse modelo de aprendizagem, Freud aprendeu a vivenciar na sua vida essa divisão, documentou em seus livros o sofrimento humano inconsciente, projetou uma visão pessimista do futuro e enfrentou muitas resistências com os resultados de suas pesquisas e com suas publicações. Freud conflituoso, aprendeu no seu entender, uma clivagem psíquica da qual nunca se cura e que aumenta com o tempo.

Se uma pessoa não se aceita, por que aceitar o outro? Se uma pessoa santa pune a si própria, com grandes autossacrifícios, como seria seu esforço para não fazer o mesmo com o outro? Gurus no oriente, aprenderama recalcar as emoções. Mais, a denegar as emoções. A impassividade na iluminação poderia ser uma forma de autocontrole, por meio da qual é possível alcançar momentos de paz. Esse modelo de aprendizagem com recalque profundo das emoções, trabalhado por Buda Shakyamuni (Siddhartha Gautama) por volta de 2.500 anos atrás, desenvolve uma denegação (um negar profundamente recalcado ou nega que nega). Cria o santo, o guerreiro, o Ideal do Eu Social. A negação da existência da criança internalizada que continuamos a ser na vida, de nossas emoções, seria uma redução do “eu”.

Em meus estudos sobre a vida de Charles Darwin, percebi que ele não se mostrava dividido, virtualmente, até que sentiu a necessidade de escrever, a partir de suas longas pesquisas e testes “A Origem das Espécies”. Então, diante dos grandes estresses, desenvolveu uma doença “com vômitos” que o impedia de estar plenamente ativo. Ele chegou a se autodenominar o Capelão do Diabo. Depois utilizou essa doença para se afastar e evitar as grandes polêmicas sobre suas teorias. Passou a receber poucos amigos, dedicar-se mais ao convívio familiar, e continuou a produzir obras relevantes sobre evolução. Pode ser que para lidar com os estresses na divulgação da teoria tenha criado essa autodestruição. Sabiamente não criou confrontos, mas a aceitou.

Se ocorre agora a pergunta por que nos autodividimos no evoluir da vida, é melhor lembrar que devemos começar a pesquisa sobre “como” evoluímos. Conhecer o “como” é necessário primeiro para depois responder aos “porquês”.

MUDANÇAS DE PARADIGMAS NA SOCIEDADE

Maquiavel escreveu em “O Príncipe” Cap. VI, o que, em adaptação minha, seria o que se segue. Não há nada mais difícil, perigoso e de resultado incerto do que começar a introduzir mudanças sociais. A introdução dessas tem como inimigos todos aqueles que aproveitam as antigas e como frouxos defensores quantos viriam a lucrar com as novas. Tal frouxidão nasce conjuntamente do temor aos adversários que tem as antigas a seu favor e da incredulidade dos homens, pouco propensos a ter fé nas inovações enquanto não se firmam em longa experiência.

Mudanças de Paradigmas, vide Thomas Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas”, original de 1962.

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