English version Home Contato
  • ecotomo
  • lapa-vemelha
  • img-slide

Artigos » A Mineração e o Setor Financeiro

A MINERAÇÃO E O SETOR FINANCEIRO

VIII CBMINA – 2014 –  Belo Horizonte – MG

Jorge Raggi, Geoconômica

Eng. Geólogo

Marcelo del Giudice,

Eng. Metalurgista, M.Sc. MAusIMM

RESUMO

O presente trabalho visa discorrer acerca das dificuldades experimentadas quando da apresentação de um projeto de mineração aos agentes do mercado financeiro. Um fato bem conhecido pelo setor mineral refere-se à complexidade de apresentação de um bom projeto de exploração e a obtenção do êxito para a capitalização e execução do mesmo. A razão desta deve-se não somente à percepção de risco elevada, por parte do capitalista, como também pela precariedade no uso de instrumentos de engenharia financeira que permitam uma melhor valoração do investimento, análise de riscos e potencial de retorno. Visando diminuir essas dificuldades e melhorar a comunicação com o setor financeiro foi feita uma análise de como esse percebe a atividade de pesquisa mineral e como as principais ferramentas de avaliação de negócios podem ser utilizadas.

Palavras Chave: Pesquisa Mineral; Análise Financeira; Financiamento

ABSTRACT

The paper aims to argue about the difficulties encountered when submitting a project for mineral research for the financial market. A well-known fact by the mineral sector refers to the complexity of presenting a good exploration project and the achievement of success for capitalization and execution. The reason for this is due not only to the perception of high risk by the investor, but also by a lack of knowledge in using financial engineering instruments to make precise analysis over valuation, risks and potential return. To decrease those difficulties and to improve the dialogue with the financial sector it was done an analysis of how it perceived the activity of mineral exploration and how the main tools for business valuation can be used.

Keywords: Mineral Research; Financial Analysis; Financing

INTRODUÇÃO

A atividade mineral pode ser analisada considerando duas grandes etapas, a saber: pesquisa mineral e implantação da mina. Quando já existe um depósito mineral, então a atividade, sob o ponto de vista de investidores, assemelha-se às demais operações industriais. Ocorre que, para a determinação desses depósitos, faz-se necessária a realização de investimentos em pesquisa mineral, sendo esta a etapa que encontra maior dificuldade para ser financiada.

Investimentos em pesquisa mineral são muitas vezes sinônimo de risco elevado. É de se compreender que a razão para tal deve-se não somente aos custos associados como, também, ao fato de que a atividade lida substancialmente com a heterogeneidade natural do planeta. Aliados aos investimentos expressivos e incertos, diversos outros fatores compõe a imagem de atividade de alto risco, cabendo mencionar aqueles de natureza regulatória, ambiental, trabalhista, dentre outros.

Frente a esses obstáculos, resta para aqueles envolvidos em pesquisa mineral a árdua tarefa de estruturar o projeto,de tal sorte a convencer o investidor. O trabalho de apresentar um projeto de pesquisa mineral consiste em reunir informações geológicas que respaldem o interesse pela área ou alvo em questão. Já o trabalho de convencer o investidor consiste em apresentar a racionalidade econômica do investimento e mapear devidamente os riscos associados. Muitas vezes essas duas etapas fundamentais não estão devidamente conectadas, principalmente, quando o projeto encontra-se gerido por empresários e empresas de pequeno e médio porte.

De modo a ilustrar o impacto dessa falta de comunicação entre a geologia de prospecção e o setor financeiro, cabe mencionar a província Mineral do Tapajós, localizada no Estado do Pará – Brasil. A região é mundialmente conhecida por ser uma das novas fronteiras auríferas do mundo,com casos de sucesso como o de empresas que conseguiram definir recursos de mais de dois milhões de onças de ouro em suas áreas [1]. Apesar de todo este potencial, a presença de investidores brasileiros na área é ainda aquém do que deveria ser, sendo a maior parte da atividade mineral profissionalizada na região resultante do empreendimento e de capital estrangeiro, notadamente de países como Canadá e Austrália. Surge, então, um questionamento do por quê deste cenário. As respostas são múltiplas, mas talvez a mais assertiva seja a diferença de como os projetos são apresentados e assimilados ao mercado investidor internacional e como esses mesmos projetos são percebidos pelo empresariado brasileiro. Países como Canadá e Austrália possuem experiência em análise de projetos de mineração em seu estado mais primordial, além do que essas nações criaram ambientes favoráveis ao investidor, com regulamentações transparentes e mecanismos de mitigação de riscos envolvendo fraudes, como é o caso das normas NI 43-101 (National Instrument, canadense) e JORC (Joint Ore Reserves Committee, australiana). Todo esse ambiente não é criado de forma rápida e demanda muito empenho dos setores público e privado.

O primeiro passo deve ser dado pelo próprio setor mineral, o qual deve procurar apresentar os prospectos existentes na linguagem e nos moldes compreendidos pelo setor financeiro, possibilitando com que esse compreenda financeiramente a atividade e o potencial de se investir em pesquisas por recursos minerais. Enquanto os agentes detentores do capital continuarem sem meios para uma correta avaliação das oportunidades, a imagem de risco elevado continuará a afastar investimentos internos.

Esse trabalho visa discutir e apresentar os métodos utilizados para a apresentação de projetos de pesquisa mineral à potenciais investidores. Conforme mencionado anteriormente,o público alvo são os empresários de pequeno e médio porte do setor mineral, os quais muitas vezes possuem projetos relevantes, mas não conseguem êxito por falta de investimentos. Com certeza, se esses projetos fossem apresentados em um modelo financeiro palatável ao investidor, um número maior de negócios seria viabilizado. Como metodologia do trabalho foram estudados os principais métodos quantitativos utilizados pelo setor financeiro para a avaliação de novos negócios e como esses podem ser aplicados à atividade de pesquisa mineral.

A LÓGICA FINANCEIRA E O SETOR MINERAL

Para obter sucesso na capitalização de um projeto de pesquisa mineral é imprescindível compreender como o investidor percebe esse tipo de negócio. A seguir são apresentados e comentados os principais pontos de vista daquele que irá financiar a atividade.

Relação Risco-Retorno

Quando um investidor depara-se com uma nova oportunidade de negócio a sua análise é norteada pela lógica da relação risco-retorno. Ocorre que essas duas variáveis tendem, na maioria dos casos, a guardar uma relação de proporcionalidade direta. Quanto maior o risco, geralmente, maior o retorno esperado. Entende-se por risco como sendo a probabilidade de o retorno efetivo de um investimento divergir do retorno previamente esperado, ou seja, é uma medida estatística de desvio [2].

Como esperado, as oportunidades de investimento em exploração mineral apresentam a paridade alto risco – alto retorno. São características destas os elevados investimentos, os baixos índices de sucesso e os enormes retornos advindos das descobertas minerais significativas. O quadro abaixo é um indicativo de como a atividade de pesquisa mineral tem uma taxa de sucesso baixa. A estatística do Departamento Nacional de Produção Mineral aponta que dentre 100 requerimentos de pesquisa protocolados apenas 1,1 chega à etapa de lavra [3].

Tabela 1. Estatística DNPM (1988 – 2010)

Avaliando os investimentos realizados em exploração mineral é fácil constatar como a percepção atual de risco ainda é alta quando se compara o Brasil com o restante dos países. De todo o montante investido na atividade, somente 3% dos recursos foram direcionados às prospecções em áreas brasileiras no ano de 2012 [4], conforme Figura 1.

Figura 1. Investimentos Privados em Exploração Mineral

Essa estatística reflete o trabalho de países como Canadá e Austrália, que criaram ambientes transparentes e regulados ao investidor privado.

Desta forma é imprescindível ter em mente que quando projetos de prospecção mineral são apresentados aos investidores, principalmente àqueles que pouco conhecem da atividade, essa percepção de alto risco surge como sendo o primeiro, e talvez maior, obstáculo.Devido a isso é importante que o trabalho de mensurar riscos e retornos seja, sempre que possível conduzido por quem traz a oportunidade, evitando com que ocorram excessos na avaliação que acabem por inviabilizar o negócio. Os riscos associados à exploração mineral, como em qualquer outra atividade, podem ser classificados como internos ou externos. Os riscos internos referem-se às questões de engenharia do projeto, enquanto os externos estão associados à fatores como localização, geologia, mercado, financeiro e outros. Interessante constar que os riscos de natureza geológica e de localização, enquanto elevados durante a atividade mineral, são usualmente menos importantes em demais atividades industriais.

Cabe ainda tornar claro e delimitado o horizonte de riscos ao investidor. O setor financeiro sempre procura trabalhar com a lógica de entrada e saída, ou seja, negócios que são muito difíceis de serem desfeitos geralmente não são bem vistos. Dentre os principais objetivos da pesquisa mineral tem-se a delimitação dos riscos e incertezas que envolvem um empreendimento mineral. Este racional busca identificar recursos minerais que tenham reais condições de serem convertidos à reservas de minério. Este conceito de mínima economicidade de um recurso é conhecido pela sigla RPEEE (Reasonable Perspective of Eventual Economic Extraction), ou seja mesmo que de forma ainda incipiente, um recurso mineral deve ser avaliado sob a ótica dos fatores modificadores que um dia permitirão sua conversão à reserva. Este mapeamento (qualificação e quantifição) dos riscos desde os estágios mais iniciais de um projeto de exploração mineral permite uma visão mais clara do negócio ao potencial investidor.

Ativos intangíveis

Outra característica dos investimentos em exploração mineral é o fato de que esses criam poucos ativos tangíveis e de liquidez, logicamente salvos os casos onde se obtém êxito na descoberta e os resultados da pesquisa tornam-se, então, um ativo vendável. Quando algum agente investe em pesquisa mineral este aporta recursos para a realização de estudos como geofísica, sondagens, análises químicas, topografia, estudos geológicos, dentre outros. Esse tipo de investimento, imprescindível à criação de um negócio mineral de sucesso, gera certo desconforto ao setor financeiro uma vez que impossibilita a criação de ativos de liquidez. Em outras palavras, uma vez que o recurso é investido, este não poderá mais ser reavido através da venda isolada dos resultados obtidos com essas pesquisas. Não há, portanto, a criação de ativos tangíveis durante a fase de pesquisa mineral. Desta forma, minimizar eventuais prejuízos através da venda de ativos é uma estratégia que quase não pode ser considerada pelos investidores durante as fases iniciais da pesquisa por bens minerais. Caso os resultados não sejam satisfatórios as perdas serão quase que totais.

Essa característica deve ficar clara ao investidor e a segurança que pode ser criada quanto a isso são as definições de cronogramas de desembolso e “portões de avanço”, conforme será detalhado neste trabalho.

Custo de Capital

Quando um agente do mercado investe em um projeto de pesquisa mineral o que usualmente ocorre é que o recurso, até então alocado em um produto financeiro, ou até mesmo em outro negócio, foi resgatado e direcionado ao projeto em questão. Essa movimentação cria uma situação de custo de oportunidade ao investidor. Por exemplo, se o recurso estivesse investido em títulos públicos brasileiros, este estaria rendendo algo próximo à taxa SELIC e, ao ser alocado nas atividades de exploração, obviamente esse rendimento deixa de existir criando, assim, um custo de oportunidade. Este racional é expresso pelo Custo Médio Ponderado de Capital, ou Weighted Average Capital Cost (WACC). Desta forma, a migração do capital de um investimento em menor risco, como é o caso dos títulos públicos, para uma atividade de maior risco somente é justificada caso existam reais e claras perspectivas de ganhos que superem consideravelmente a WACC. Essa lógica deve sempre estar presente na elaboração dos projetos de investimento em exploração mineral.

Os agentes de investimento sempre irão comparar a rentabilidade prevista pelo projeto com o custo médio ponderado do capital disponível.

No caso brasileiro, este é um fator agravante. O país possui um histórico de taxas de juros elevadas, o que cria uma condição favorável para aqueles investidores que buscam boas remunerações com baixa exposição ao risco.

Mais recentemente, na última convenção do PDAC (Prospectors and Developers Association of  Canada), em um dos principais painéis do evento, foi feita uma correlação entre o preço do ouro e o desempenho do índice S&P 500, indicando uma tendência inversamente proporcional entre os dois. Esse movimento é explicado pela percepção de oportunidade por parte dos investidores que, dado o bom desempenho dos papéis em bolsa, desfazem as aplicações em ouro para investir no mercado acionário.

ATabela 2 mostra o rendimento das principais aplicações brasileiras durante o ano de 2013 [6].

Tabela 2. Rendimento das principais aplicações – 2013

Capital de Risco

A atividade de pesquisa mineral é, essencialmente, uma atividade de capital de risco e, do ponto de vista do mercado financeiro, guarda paralelos interessantes com o fomento de tecnologias ou produtos inovadores. A razão disto é que quando um agente investe em, por exemplo, pesquisas para o desenvolvimento de uma nova tecnologia, este procura assegurar os recursos de longo prazo necessários à transformação de ideias em resultados comerciais. De modo similar, quando se investe em exploração mineral o que se faz é garantir com que haja condições para concluir as pesquisas necessárias à definição de um recurso mineral com boas perspectivas de economicidade. Quando se analisa a indústria brasileira de fundos, nota-se um crescimento importante de fundos de venture capital voltados para o fomento de pesquisas, tecnologias e empresas startups. Por outro lado, há uma escassez de investidores nacionais atuando no financiamento de projetos de exploração mineral. Mais uma vez essa situação é devida à elevada percepção de risco da atividade, o alto volume de recursos necessários, uma comunicação deficiente entre os setores mineral e financeiro e um ambiente regulatório confuso e burocrático.

Apesar desse cenário, diversos projetos brasileiros foram e vem sendo viabilizados com o aporte de recursos estrangeiros, com destaque para as empresas juniores que abrem o capital em bolsas do Canadá e Austrália. Tomando como exemplo a bolsa de Toronto, têm-se as seguintes estatísticas referentes ao ano de 2012 [7].

Tabela 3. Empresas listadas na Bolsa de Torontoe com atividades no Brasil(www.tmx.com/en)

Uma vez que o Brasil não possui bolsas especializas na atividade mineral, como é o caso da Bolsa de Toronto (TSX) no Canadá, resta aos empreendedores nacionais a opção de buscar recursos junto à indústria de fundos de investimentos e (ou) investidores privados, os quais muitas vezes, possuem pouco ou nenhum contato com o setor mineral. O empreendedor também sabe que levantar os recursos necessáriosjunto à um banco seria uma tarefa complexa e com poucas chances de êxito. Em uma simples reflexão é fácil imaginar que o banco irá pedir não só um projeto que apresente racionalidade econômica (que comprove a capacidade de pagamento) como também irá exigir garantias sobre o empréstimo concedido. Fundamentalmente, o banco procura avaliar se a atividade a ser financiada tem condições de gerar caixa suficiente para o pagamento das parcelas e, caso não haja êxito, ele tenha um ativo de liquidez que sirva como garantia exequível. Essas exigências são difíceis de serem cumpridas durante a etapa de pesquisa mineral.

Do ponto de vista do investidor, este procurar avaliar a oportunidade com uma sistemática similar à utilizada pelo banco, buscando quantificar o potencial de geração de caixa do projeto (ou valorização do mesmo) e os riscos envolvidos. A diferença é que a contrapartida pelo aporte de capital é dada na forma de participação no projeto.

Essas observações são importantes, pois deve se ter em mente que a atividade de pesquisa mineral é uma atividade de capital de risco, onde os recursos são aportados a longo prazo e sem a criação de ativos tangíveis que possam garantir parte do investimento. O setor financeiro sabe do potencial de retorno existente, quando da descoberta de um depósito mineral significante, mas ainda é carente em técnicas para melhor analisar as oportunidades e trabalhar com os riscos próprios da atividade. Por último tem-se um elevado custo médio ponderado de capital (WACC) para os projetos brasileiros.

ELABORAÇÃO DE PROJETOS

Como apresentado anteriormente, a elaboração de projetos de pesquisa mineral, com o viés de captação de recursos deve, não somente, ter um excelente embasamento técnico como, também, é imprescindível que a lógica utilizada pelo mercado financeiro esteja presente ao longo do trabalho. De modo a permitir um melhor grau de assertividade na interlocução entre o empresário do setor mineral e o investidor, são propostas, a seguir, algumas técnicas e mecanismos que permitem um melhor entendimento dos riscos e do potencial de retorno dos projetos.

Travas de Perda e Método dos Portões

Tomando como exemplo o mercado de capitais, percebe-se que investimentos desta natureza são normalmente acompanhados de mecanismos para limitação das perdas, os chamados stoploss. É comum ao se investir em ações de empresas cuja percepção de risco seja elevada, estipular uma ou mais travas de preço que, caso sejam atingidas, as ações são imediatamente vendidas com o intuito de desfazer da posição e limitar as perdas [8].O ponto negativo das travas é o fato de que o investidor deve conviver com a probabilidade de se desfazer dos papeis e, em um segundo momento, o mercado retornara uma tendência positiva gerando, assim, frustrações. Por outro lado, esse tipo de mecanismo define um limite máximo de perda que, quando respeitado, torna o risco do investimento perfeitamente mensurável no início da operação. Claro que tratando de investimentos em ações pressupõe-se um mercado com liquidez tal que permita ao investidor achar compradores e vendedores a qualquer instante e assim se desfazer da posição. Isso, obviamente, não é o que ocorre no setor mineral. Contudo, tomando a ideia emprestada, trabalhos de pesquisa mineral podem ser elaborados com esse tipo de mecanismo, permitindo ao capitalista saber exatamente a extensão do seu prejuízo, caso ele venha a ocorrer.

Existem várias formas de se montar essas “travas”.O quadro abaixo é um exemplo onde diferentes fases da exploração mineral são apresentadas [9]. Os resultados de cada uma dessas fases são condicionantes para a manutenção dos investimentos e avanço do projeto para as próximas fases configurando, assim, mecanismos de stoploss para o investidor.

Tabela 4. Fases da Exploração Mineral

OBSERVAÇÃO : Os dados da Tabela 4 precisam de ser adaptados por região, tipo de minério e outros fatores que individualizam cada pesquisa mineral.

Interessante notar que à medida que se avança, os investimentos se elevam enquanto o tamanho da área alvo é reduzido. A razão desse aumento de custos é a utilização de métodos mais sofisticados nas fases finais, buscando amostrar de forma sistemática o recurso mineral.

Associando esse tipo de quadro ao cronograma de atividades, o investidor passa a ter uma noção clara dos investimentos necessários e da magnitude do risco envolvido. Cada etapa é então uma espécie de stoploss, sendo que o fator que indica ao investidor se esse deve continuar na posição ou sair dela são os resultados obtidos em comparação com os esperados / projetados.

O importante é que os investimentos em pesquisa mineral sejam apresentados ao capitalista de forma segmentada e que fique claro que a liberação dos recursos é condicionada aos resultados obtidos. Notavelmente esta forma de apresentação é muito mais lógica e confortável do que simplesmente se apresentar um cronograma de atividades fechado com um investimento único e que contempla todas essas etapas.

Outro método interessante para a delimitação dessas etapas é o FEL Front-End-Load [10].  O FEL quando aplicado à pesquisa mineral e em consonância com as normas de transparência ao mercado possibilita a criação de um ambiente mais seguro ao investidor.

Na Gestão de Pesquisa Mineral os diversos portões do FEL (1, 2, 3, 4 e 5) são entendidos como análises que visam verificar se a ocorrência mineral que está se trabalhando pode ser promovida ao passar por cada portão. Se cumpridas todas as fases desse FEL (Figura 2), tem-se um melhor conhecimento geológico e econômico possível, dentro das condições do momento, possibilitando obter um corpo de minério passível de ser lavrado economicamente.

Figura 2. Método FEL aplicado à pesquisa mineral

Ao longo da aplicação do método FEL são considerados dois modelos: Aversão a Riscos e Alavancagem de Riscos. No primeiro, a pesquisa mineral avança e após a identificação de um depósito mineral tem-se início a etapa de produção. No segundo, grande parte dos trabalhos é realizada em paralelo aumentando os riscos do investimento, mas buscando agilidade da produção.

Para uma melhor compreensão dos riscos financeiros envolvidos durante a etapa depesquisa mineral podemos estabelecer uma comparação entre esta e os instrumentos derivativos [11], tão presentes nos mercados financeiros. A pesquisa mineral, em sua fase mais primordial, com alvos ainda a serem trabalhados, possui uma percepção de risco elevada contudo, à medida que os trabalhos progridem, o projeto torna-se mais maduro e, consequentemente, aproxima-se do lastro que é um depósito mineral. Por sua vez, nos mercados futuros e de derivativos é comum observar o distanciamento do lastro dos ativos à medida que instrumentos complexos e, muitas vezes baseados em outros derivativos, são negociados [12]. Essa lógica está demonstrada nas Figuras 3 e 4 a seguir.

Figura 3. Desdobramento de um derivativo que ao distanciar do lastro (base), aumenta o risco do investimento.

Figura 4. Desdobramento de uma Pesquisa Mineral que tem maior risco no FEL 1 e ao avançar mais próximo do lastro vai agregando valor reduzindo o risco.

Fluxos de Caixa e Indicadores de Rentabilidade

Quando alguém realiza investimentos em, por exemplo, títulos públicos, este sabe exatamente as características do produto financeiro, a saber: rentabilidade, vencimento do título, tributação, dentre outros. Pode, ainda, usar de previsõesde mercado e histórico de rentabilidades para compreender melhor o investimento. Usualmente esses títulos são atrelados à taxa básica da economia, no caso brasileiro, a SELIC.

Uma instituição financeira que queira captar recursos de investidores tem, então, a tarefa de oferecer um produto que permita ganhos além daqueles que seriam possíveis com o investimento em títulos públicos. Caso contrário, não haveria razão para o investidor trocar a segurança de um título público por um emitido por uma instituição privada.

Essa mesma lógica ocorre em demais investimentos e deve ser mais bem trabalhada e utilizada pelo setor mineral. Quando uma oportunidade de investimento em mineração é oferecida a um investidor, deve-se ter em mente que caso os ganhos previstos não superem consideravelmente a remuneração paga pelos títulos públicos, muito provavelmente a oportunidade não irá despertar interesses.

O mercado financeiro avalia esse ganho adicional em relação à taxa básica da economia através de indicadores quantitativos, os quais em sua maioria baseiam-se nas projeções de fluxo de caixa do projeto.O Fluxo de Caixa é um instrumento gerencial que representa o fluxo de entradas e saídas de recursos projetados [13], com o objetivo de acompanhar o futuro desempenho financeiro. Como o Fluxo de Caixa é elaborado, baseado em projeções, as avaliações econômicas de dados de quantidades de minério a serem extraídos, custos sobre a extração desse minério, preço de venda e vida útil precisam ser reais. Qualquer manipulação e/ou mascaramento desse Fluxo pode esconder a viabilidade, ou não, do projeto e, se viável, não fornecer o esperado retorno indicado no Fluxo de Caixa, podendo até provocar falência.

O fluxo de caixa de um ativo mineral, desde o seu descobrimento até o encerramento das operações [14], está exemplificado na Figura 5.

Figura 5. Exemplo de Fluxo de Caixa da atividade mineral

Das quatro etapas apresentadas, a de exploração mineral é a que encontra maior dificuldade de ser financiada, já que as incertezas quanto à implantação e operação ainda são muito grandes. Apesar desta característica, deve-se procurar demonstrar ao investidor capitalista que, ao término da etapa de exploração mineral, um ativo terá sido construído. Ou seja, deve ficar claro que a atividade tem como foco comprovar uma reserva mineral e o seu potencial de exploração. Ao término desta, o ativo terá sido valorado em função da descoberta, permitindo com que o investidor opte por vendê-lo, apurando o devido valor econômico agregado, ou continuar investindo e avançar para a fase de exploração. Essa opção de investir, agregar valor e vender é bem vista por investidores de capital de risco, e muitos fundos possuem expertise em trabalhar com essa mecânica. Desta forma, a sugestão é que projetos em fase de exploração mineral sejam estruturados de modo a possibilitar essas duas opções ao investidor capitalista, ou seja, avançar para a fase de implantação e operação ou vender o ativo valorizado ao término das pesquisas.

Um fluxo de caixa para a opção de venda após a conclusão das pesquisas seria composto por n saídas de recursos, bem delimitadas e com travas conforme comentado anteriormente, e uma entrada única, que seria a venda do projeto a outro investidor interessado na exploração do recurso. De modo à quantificar um negócio com essas características faz-se necessário o uso de indicadores de rentabilidade que são aplicados a partir dos fluxos de caixa projetados.

ATabela 5 resume os principais indicadores utilizados pelo mercado financeiro para avaliação de oportunidades de investimento. São metodologias baseadas na teoria de fluxo de caixa descontado e são, portanto, sensíveis às considerações adotadas e às variáveis externas, como taxa de juros e tributação.

Tabela 5. Indicadores de Rentabilidade

Dos indicadores apresentados, o valor presente líquido e a taxa interna de retorno são os mais utilizados para avaliação de negócios.O primeiro é utilizado para responder se o projeto é, ou não, economicamente viável. O segundo preocupa-se em mensurar o quanto a projeção de rentabilidade do projeto supera a rentabilidade de títulos disponíveis no mercado (muitas vezes tomando como métrica a taxa básica de juros da economia) [15].

Para o cálculo da TIR e, assim como, demais indicadores, faz-se necessária a criação de cenários, os quais devem guardar certa racionalidade e conservadorismo. Começar adotando como fonte de dados os resultados obtidos por negócios similares e em áreas próximas ao ativo é a melhor estratégia e que será mais bem aceita pelos investidores em potencial.

O indicador Valor Econômico Agregado (EVA) busca mensurar o valor criado pelo investidor ao assumir o risco do negócio. O custo médio ponderado de capital (WACC) calcula os custos dos recursos de cada fonte utilizada para o financiamento da atividade. Este também serve como taxa de juros para ao cálculo do VPL [16].

Análise de Sensibilidadee Modelagem

Devido às características da atividade mineral, onde os prazos de maturação são longos, existe uma incerteza quanto aos cenários projetados, mais especificamente quanto às variáveis vitais do negócio como taxas de juros, preço das mercadorias e demais características de mercado.

De modo a tratar essas incertezas deve-se lançar mão da análise de sensibilidade das principais variáveis. Essa técnica nada mais é do que avaliar o impacto de determinada variável nos resultados pretendidos. Por exemplo, supondo a exploração mineral para identificação de uma jazida de ouro, deve-se procurar mapear os diferentes indicadores de rentabilidade (VPL e TIR) em função da cotação do metal. Esse mapeamento permite ao investidor avaliar o horizonte de sucesso do projeto e, inclusive, quantificar os riscos envolvidos. Supondo que um projeto apresente VPL e TIR satisfatórios somente para cotações próximas às máximas históricas, com certeza esse será percebido como sendo de elevado risco pelo investidor e, dificilmente, será viabilizado.

A seguir tem-se um exemplo real de análise de sensibilidade feita pela empresa Eldorado Gold para o seu projeto de exploração de ouro na região do Tapajós, Pará – Brasil. Foram avaliados os indicadores VPL e TIR em função da cotação da onça de ouro [17].

Tabela 6. Análise de sensibilidade (Eldorado Gold)

A partir desta análise fica evidente a forte influência do preço do metal nos resultados do projeto, onde uma elevação de 1.000 USD/oz para 1.250 USD/oz dobra o valor projetado da TIR.

Para um tratamento mais profissional do efeito das variáveis é comum a utilização de métodos computacionais estocásticos, como o Método de MonteCarlo [18]. Fundamentalmente, este busca mapear a volatilidade do projeto em função das principais variáveis que podem influenciar nos resultados financeiros, permitindo com que haja uma análise probabilística dos indicadores de rentabilidade, como VPL e TIR. Tratando especificamente da etapa de exploração mineral, algumas variáveis que podem impactar no valor do projeto são: cotação do minério, taxa de juros, tamanho do depósito, teores, recuperação metálica, dentre outros.

Para os casos onde existe mais de uma opção de investimento é interessante utilizar um modelo de alocação de recursos e aversão ao risco. Diversas são as ferramentas para determinar a participação ótima em cada negócio e a criação de um portfólio eficiente. Um indicador utilizado é o Equivalente Certo, onde são ponderadas as participações em função dos VPLs projetados, da aversão ao risco e das probabilidades de sucesso inferidas para cada negócio [19].

Também é interessante a utilização do modelo Capital Asset Price Model (CAPM) para a quantificação de risco e retorno de portfólios de investimentos. Com este modelo é possível determinar uma fronteira eficiente para a relação risco retorno, dentro da qual os projetos devem estar situados. A criação de portfólios de oportunidades é interessante, do ponto de vista do investidor, já que há uma diversificação de riscos e também, com o agrupamento de projetos, torna-se possível a redução de custos que são comuns durante a fase de exploração mineral, como aqueles de origem administrativa e legal.

CONCLUSÃO

A atividade de pesquisa mineral é a etapa de investimentos mais delicada durante todo o ciclo de vida de um ativo mineral. Esta possui características próprias, como os baixos índices de sucesso, os elevados investimentos e a não criação de ativos de liquidez, que acabam por afugentar investidores privados e demais agentes de fomento. Dado este panorama, faz-se necessário por parte do setor mineral, um empenho em melhor estruturar seus projetos de pesquisa, permitindo com que investidores tenham a correta percepção da atividade, seu potencial de retorno, e riscos associados. Essa melhor interlocução com o setor financeiro inicia a partir da utilização de técnicas e metodologias que são comuns à analise de investimentos, como indicadores de fluxo de caixa descontados, análise de sensibilidade e métodos estocásticos, para a apresentação de projetos de pesquisa mineral. A apresentação desses projetos deve ser feita de tal sorte a mapear as principais variáveis que podem impactar nos resultados financeiros quantificando, assim, a volatilidade do negócio.

Além da utilização dessas técnicas é importante que os projetos sejam bem estruturados, no que tange a cronogramas de aporte de recursos, e definição de etapas para revisão de resultados e tomadas de decisão. Esse tipo de mecanismo permite com que o investidor saiba a extensão dos investimentos e quais são as condicionantes adotadas para a manutenção da atividade ou abandono da mesma. A utilização de métodos do tipo FEL é indicada para a apresentação dessas etapas.

Sempre que for condizente a pesquisa mineral deve ser apresentada como um negócio independente, com começo, meio e fim. Nessa abordagem, o investidor aporta os recursos necessários com o intuito de chegar a uma reserva mineral e, ao término das pesquisas, pode optar em vender o ativo, com a devida adição de valor, ou prosseguir para a fase de extração mineral. Essa abordagem segmentada cria uma situação mais confortável ao investidor, já que existe uma possibilidade de realizar os investimentos em um prazo menor e sem ter de avançar para os investimentos de implantação de uma mina.

Por último deve-se procurar, sempre que possível, apresentar um portfólio de oportunidades a um agente do mercado financeiro. A utilização de portfólios aumenta a probabilidade de êxito, reduz custos e diversifica os investimentos, melhorando a percepção de risco por parte do investidor. Essa tática é ainda pouco explorada no Brasil, cabendo aos empreendedores do setor mineral buscar a formatação de parcerias para a elaboração desses portfólios de oportunidades de pesquisa mineral, que com certeza possuem um apelo maior do que a apresentação de projetos isolados.

BIBLIOGRAFIA

[1]Montgomery, M (2013). Technical Report Sao Domingo Gold Project Brazil. AuroraGold Corporation.

[2] BAPTISTA, A. S. (1996) O equacionamento do problema do risco na avaliação de projetos de investimento mineiro, Boletim de Minas, Lisboa, v.33, n.3, p 199-217.

[3] DNPM. www.dnpm.gov.br, acessado em 02/05/2010

[4] IBRAM (2012), Informações e Análises da Economia Mineral Brasileira, 7° edição.

[5]DIMITRAKOPOULOS, R. (2008) Risk Assessment for Ore Reserves and Mine Planning: Stochastic Simulation Aplication for the Mining Industry. McGillUniversity. Departamento de Mineração, Metalurgia e Materiais. Laboratório de Planejamento Mineral Estocástico. Canadá. Material de Aula.

[6]BM&FBovespa. http://www.bmfbovespa.com.br/. Acessado em 02/05/2013

[7] TSX. www.tmx.com/en, acessado em 02/05/2013

[8]DAMODARAN, Aswath. Finanças Corporativas – Teoria e Prática. Bookmann. São Paulo. 2001.

[9] DUCHINI, J. (2006) Estruturação Interna para Planejamento e Pogramação dos Serviços de Exploração. Procedimento Padrão de Mineração Serras do Oeste Ltda. Belo Horizonte.

[10] GEORGE, R., BELL, L. E BACK, W.E. (2008) Critical Activities in the Front-End Planning Process. Journalof Management in Engineering, volume 24, 2, pp 66-4.

[11] HULL, J (1996). Introdução aos mercados futuros e de opções. 2. Ed. São Paulo: BM&F/Cultura Editores Associados.

[12] RAGGI, J. (2013). Gestão de Projetos de Mineração – Riscos de Investimentos.

[13] MAUBOUSSIN, J.M; RAPPAPORT (2002), A. Análise de Investimentos. Rio de Janeiro. Campus.

[14] WOODAL, R. (1992). Challenge of Minerals Exploration in the 1990s. Mining Engineering, Littleton. v.44, n.7, p. 679-683.

[15] ASSAF NETO, A. (2005). Finanças Corporativas e valor. 2 ed. São Paulo, Atlas.

[16] LAURENCEL, L.C; REZENDE FILHO, M. (2013). Engenharia Financeira . Rio de Janeiro. LTC

[17] Eldorado Gold (2011). Technical Report for the Tocantinzinho Gold Project.

[18] GLASSERMAN, P. (2004) Monte Carlo methods in financial engineering. New York: Springer- Verlag.

[19] ANGIOLETTI, S. M. F. (2009) Proposta de uma Metodologia para Suporte a Decisão de

Investimentos. Dissertação de Mestrado em Engenharia de Produção, UFMG

 

Rua João Freitas, 19 B. Santo Antônio | Belo Horizonte - MG

Fone: (31) 3296-5880 | FAX: (31) 3296-5710