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Artigos » Liberdade Consciente

LIBERDADE CONSCIENTE - jorgeraggi@geoconomica.com.br - junho 2020

Evoluímos para viver com mais liberdades. Quando nossa sociedade quer extinguir as escravidões, as discriminações sociais, as diferenciações de classes, em parte, é porque estamos com mais liberdades internas.Maiores liberdades internalizadas conduzirão a uma sociedade, que é o somatório de todos nós, mais livre, em melhores condições de organizar complexidades crescentes. A experiência de Pavlov pode ensinar muito sobre como agimos, por isso será mais detalhada a seguir.

Pavlov estudava a fisiologia da digestão e criou uma experiência, no início do século XX.Realizou uma incisão num cão para expor as glândulas salivares das bochechas. Em seguida acoplou um tubo ligando as glândulas a um frasco, para medir o volume de cada salivação. Esse frasco, por sua vez, era conectado a uma impressora gráfica, para registros das várias experiências repetidas em estudos e análises do comportamento.

A comida para o cão era colocada em um recipiente, dando-lhe condições de se alimentar normalmente, sempre que estava com fome. Depois, Pavlov passou a tocar um diapasão, pouco antes de oferecer a comida. Após um certo número de vezes produzindo o som, para somente depois fornecer o alimento, ele observou que o cão salivava só com o som, mesmo não havendo comida depois.

Inicialmente, o estímulo era a comida que induzia a saliva (resposta). Depois, o estímulo passou a ser o som, induzindo a saliva (resposta). Nessa segunda condição, a comida, que vem após a resposta, é denominada reforço.Oreforço (comida) pode ser apresentado todas as vezes em que é emitido o som — neste caso, trata-se de um reforço constante. Ou apresentado às vezes, com sequência periódica ou não, sendo então denominado reforço intermitente.

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A existência do reforço mantém o comportamento do cão, fazendo-o salivar logo que escuta o som.A representação do reflexo condicional (1) é a figura 1 sem o cão. E a figura 2 com o cão. Quando mostramos o cão é para salientar que éele querecebe o estímulo, emite a resposta (comportamento), e reforça!

O reflexo condicional é um comportamento que independe da consciência. É o cão que faz, age. Um estímulo doloroso, como um choque elétrico, pode induzir uma série de reflexos simultâneos como resposta a esse estímulo: constrição de vasos sanguíneos, alteração da respiração, transpiração excessiva, retração brusca da parte atingida.

No ambiente cotidiano, esses reflexos são reforçados ocasionalmente — reforço intermitente. O ambiente age criando estímulos, e o ser é induzido a respostas, na forma de vários processos fisiológicos: fuga ao fogo, fechamento das pálpebras diante de cisco nos olhos, secreção de hormônios, contração de músculos, entre outros.

Estímulos que no nosso íntimo lembrem reminiscências ruins, por toda a vida, ou durante muito tempo, vão ocasionar mal-estar e estresses sem que existam causas reais. Mesmo que não ocasionem danos, esses estímulos produzem muitos estresses no estado inconsciente, além daqueles que percebemos e nos quais podemos atuar.

Cada um de nós em idade infantil é educado e se educa, e a soma de nossas ações, de modo inconsciente, cria ambientes mais rígidos. Domar a nós mesmos [2] para nos inserirmos na sociedade adulta seria como modelamos nossas civilizações [3], ainda de modo inconsciente [4]. Para domara mim mesmo preciso criar, inconsciente, uma divisão psíquica. Preciso quebrar a unidade, na minha imaginação. Passo a ter dois Eu’s: animal e social, ação e criamos reação. O Eu Animal é subjugado pelo Eu Social. Essa criação, como é realizada, tem um modelo com a experiência de Pavlov. Existe na imaginação de todos nós, e é mantida sob pressões inconscientes, é conflituosa. O Eu Social não é bem um Eu. É mais remendos que sobrepujam o que somos na realidade.

Nós organizamos a sociedade utilizando tentativas e erros, com mais inconsciência. Por exemplo, temos regimes autoritários – que tem um “pai” – e regimes democráticos em que é escolhido um presidente com mandato definido em períodos de tempos. Ainda não definimos, mundialmente, pela liberdade democrática. Estamos tentando. Mas há sinalizações de que caminharemos para democracias. A rota de fuga é bem conhecida, das ditaduras para as democracias.

Talvez possamos avançar e mostrar que Estímulo exige o Sentir para que a Resposta aconteça. É com o Sentir que eu emito a Resposta. OSentir faz a ação, age. Se excluirmos uma localização do Eu no cérebro [5] e tudo o que é fora do nosso próprio corpo, imaginativo, sem existência real comprovada, podemos perceber que Eu sou Eu. E quando nos conscientizarmos de que Eu sou Eu, verificaremos que não precisamos de quantidades inimagináveis de crenças, normas, regras de comportamentos, leis,para organizar a sociedade. Eu sou Eu, basta!

O Brasil é um exemplo de que leis, normas, portarias, recomendações, e ainda cumulativas, não funcionam. Com o desenvolvimento consciente da liberdade responsável em cada um de nós, podemos alcançar maiores liberdades internas e na sociedade, nos organizarmos com mais liberdade: a si mesmo, nas famílias, nas empresas, no país. As grandes energias que despendemos, inconscientes, para nos manter divididos, e mais, uma parte psíquica domando a outra, podemos redirecionar para crescimentos sadios.

REFERÊNCIAS

(1) Pavlov, I.V. “Textos Escolhidos” Abril Cultural. SP. 1974. “Condicional” de acordo com o Dr. Gantt é o termo empregado originalmente por Pavlov e foi preservado em francês e alemão pela tradução. “Condicionado” se tornou convencional em português (*), embora o termo original de Pavlov pareça mais apropriado: isto é, tende a enfatizar que o estabelecimento da nova relação estímulo – resposta (reflexo) é contingente ou condicional sobre a ocorrência de certos eventos necessários. Tradução dos textos de Pavlov do inglês p/ português de Rachel Moreno. p. 163 e “I. P. Pavlov, LecturesonConditioned Reflexes, translatedandeditedby W. HorsleyGantt, New York and London, 1928.(*) Em inglês também.Pavlov em “O Conceito de Reflexo e sua Extensão” cita o caso de um cão que tinha um “reflexo de liberdade”. Ele não conseguia permanecer quieto enquanto era forçado para a experiência.

[2] O livro “Sapiens” de Y. N. Harari mostra que nossa civilização tem o viés escravocrata. Comprovadamente, desde as imagens antigas de humanos encurvados pelo peso do trabalho.

[3] Tentativas e Erros, como evoluímos. O conceito de Evolução adotada foi de apoiadores para maior força política da Teoria. Dizem que Darwin queria Teoria das Modificações, porque modificação é para conservar e assegurar a vida futura da espécie.

[4] Inconsciente e Consciente, não sabemos ainda o que é.Freud em seu livro “O ego e o id”, 1923, em uma longa nota ao pé da pág.do Capítulo 1, “E, afinal de contas, uma consciência da qual nada se sabe parece-me mais absurda do que algo mental que é o inconsciente.” Mas finaliza o Capítulo 1: “…a propriedade de ser consciente ou não constitui, em última análise, o nosso único farol na treva da psicologia profunda.”

[5]“Um novo eu e a gestão.” Artigo de minha autoria publicado em 02/10/19 https://www.linkedin.com/in/jorge-pereira-raggi-10900411a/

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