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Artigos » A INOVAÇÃO VAI INOVAR NO BRASIL?

A INOVAÇÃO VAI INOVAR NO BRASIL ? – jorgeraggi@geoconomica.com.br janeiro 2011

Texto publicado na Revista Mineira de Engenharia – Ano 2 – Edição 2 – Março/2011.

“Conhecer é fabricar,” reafirma Piaget. (1)

Engenharia é inovação. Podemos somar ao movimento atual de persuasão de inovação interagindo na construção. O processo evolutivo do saber humano e do conhecimento para a ação é construído por Konrad Lorenz (2) com a seguinte fundação : o que pensamos é quase sempre errado, porém o que aprendemos a fazer é quase sempre certo.

Primeiramente formamos uma idéia, depois a confrontamos com a experiência e com os dados que percebemos na nossa visão da realidade, de outros que possam colaborar, e concluímos se podemos avançar para as ações. Essas comparações sucessivas entre as percepções internas e as realidades do mundo exterior é um método de conhecimento denominado de pattern matching (modelagem que vai se fazendo) por Karl Popper e Donald Campbell. Essa cognição é encontrada em uma forma bem mais simples nos níveis mais inferiores dos processos vitais ao estudar a evolução da vida. No pensamento consciente são suposições seguidas de confirmações ou não. O que pensamos ser certo e se demonstra errado pode em outras provas exigir o abandono ou criar novos pensamentos – é a formação de hipóteses e verificações – o teste da realidade.

A hipótese é um andaime na construção do conhecimento que poderá ser demolida no avanço das ações. Quem lança uma hipótese deve agradecer àqueles que lhe mostram a insuficiência, pois toda verificação consiste em provar que ela resiste às tentativas de refutação. Cada hipótese permite incorporar dados que podem gerar outras mais adaptáveis à realidade. A maioria de nós, no estado consciente, ama suas hipóteses. Um exercício doloroso, mas que nos mantém jovens e saudáveis, é dedicar-se todos os dias, como se fosse uma ginástica matinal, a se desfazer de uma hipótese querida, de hábitos de pensamentos.

Uma hipótese obtida empiricamente de observações, de intuições, de deduções, pode se tornar uma inovação com as experimentações e modelagens que vão se adaptando à realidade. Uma das representações do processo de inovação é Capital + Trabalho + Riscos, que se traduz em um sistema com auto-regulação e instala um círculo virtuoso.

Inovação Capital Trabalho Riscos 

Não há aplicação de capital e trabalho sem riscos. “A coragem é mais necessária do que a sorte : aquela faz nascer esta,” disse Napoleão Bonaparte.(3)

Mas como inovar no Brasil com legislação trabalhista paternal e ultrapassada; um meio ambiente onde as partes da sociedade não se entendem; uma infra-estrutura desanimante; tributos elevados; juros altos; baixos níveis de compreensão na escolaridade; a cultura ibérica de leis – normas – regulamentos – portarias – sem decisões para não comprometer os funcionários (que sentem desprotegidos em suas ações) e os órgãos públicos que não interagem.

Como inovar no Brasil com uma “selva burocrática e jurídica formada por 183.000 normas legais”. Este número citado pelo deputado federal Cândido Vaccarezza(4) é ainda reforçado quando ele diz que “a Câmara não pode ser obstáculo às reformas tributárias, previdenciárias, políticas e trabalhistas”. Se ele usa a expressão “ a Câmara não pode ser obstáculo” posso traduzir que ainda é um obstáculo, ao invés de ser a solução. E se, como é de nossa cultura ibérica, as reformas que vierem piorarem aumentando a complexidade e a interação de leis, normas, portarias, e as protelações nas decisões ?

Uma das respostas pode estar com Eliezer Batista : “contribuir para a melhoria de nossa auto-estima e mostrar que, unidos, temos condições de modernizar e tornar o Brasil melhor e mais justo”.(5) Estas palavras que lembram as atribuídas a Tiradentes e outros notáveis, pode, de modo inovador se transformar em realidades, alavancando a auto-estima. Uma proposta que possa impactar e fazer com que a base da população sinta melhorias reais, desenvolvendo a auto-estima, fazendo nascer, crescer, e produzir cada vez mais.

Uma proposta aqui apresentada para alavancar a auto-estima brasileira seria um conjunto de planos – projetos – PPP’s( Parcerias Públicas Privadas ) visando, efetivamente, mudar as condições de transportes – urbanos, rodoviários, aeroviários e portuários. Poderia transformar nossa BelÍndia em um país com mais respeito com grande parte da população, que com seu trabalho faz o Brasil crescer. Grande parte da população urbana viaja 4 horas por dia, toma 4 lotações, trabalha mais de 8 horas, vivendo em altos níveis de estresses para construir, limpar nossas cidades, constituindo uma escravidão moderna que parece não ter fim. Seria uma inovação de grande impacto na qualidade de vida e na auto-estima de todos nós brasileiros tornar o transporte ágil, confortável, para criar novas condições de trabalho. Criar um espírito de corpo inovador em grande parte da população, acabando com estas senzalas distantes , mas muito mais reais que as antigas na época da escravidão. Acabando com vários brasis dentro de um Brasil, como foi a tomada do alto do Complexo do Alemão, RJ, no dia 28/11/2010 e fincada a bandeira brasileira como se lá não fosse território do país. Ao invés de uma luta insana de tentar tornamos todos iguais – o que não é humano – dar maiores oportunidades a todos.

Um processo inovador visando melhoria de auto-estima de grande parte da população pode ter efeitos multiplicadores desenvolvendo pessoas mais saudáveis, mais criativas, no ambiente de trabalho de todos nós. A proposta da modernização dos transportes pode ter o sucesso que obtivemos como o que criamos para sair do Círculo Destrutivo da Inflação, com muita vontade política, vários erros, vindo a acertar com o Plano Real. Pode balizar Planos Inovadores de Transportes. Talvez nos transportes está um fio condutor de impactos em inovações no Brasil. O atual sistema de transportes, engessado, tem muitos beneficiários. Inová-lo vai significar muitas lutas. Mas se atuarmos em uma frente que pode criar um espírito de corpo no desenvolvimento e na qualidade de vida geraria uma cultura capaz de alterar o que temos de ibérico – ao invés da ação com riscos, fazemos leis, normas e portarias, que vão depender de regulamentações, aceitações, e práticas que nunca virão se transformar em ações.

As bases históricas da inovação podem ensinar muito o como fazer. Maquiavel, cap. VI, escreveu em “O Príncipe” : “Deve-se ter em conta que não há nada mais difícil de ser realizado, nem de sucesso mais duvidoso, nem de maior perigo e manejo, do que o estabelecimento de grandes inovações, pois o legislador tem por inimigos a todos aqueles que viviam bem no regime anterior, e só encontra tímidos defensores entre os favorecidos com o novo. Timidez é produto, em parte, do medo dos adversários favorecidos pelas antigas leis e, pela natural incredulidade dos homens que não estão convencidos de que uma coisa nova seja boa até que a experiência o prove. Isto faz com que os adversários de inovações formem um partido para combatê-las na ocasião propícia e, os que as defendem o fazem francamente, de forma que uns e outros representam um perigo para o novo regime.”

“Para se tratar a questão a fundo, é preciso ver se os inovadores o são por iniciativa própria ou se tem que os apóie, isto é, se, para realizar sua empresa precisam apelar para a persuasão ou se podem empregar a força, pois no primeiro dos casos, sempre fracassam sem conseguir nada.” A força citada por Maquiavel era militar. Hoje se traduz, além desta, por poder financeiro, político, da imprensa, da internet, e a mais importante, grande mobilização da sociedade para inovar.

A inovação vai inovar no Brasil ? – A resposta dependerá se substituirmos a cultura ibérica – de leis, normas, regulamentos, portarias, que significa também falta de coragem – por ações. Uma inovação desta pode gerar outras inovações de vulto.

REFERÊNCIAS

(1) – Jean Piaget em seu livro “Sabedoria e Ilusões da Filosofia”, Ed. Abril, SP, 1975, pág. 308, citando o filósofo francês Jacques Maritan.

(2) – K. Lorenz em “Oito Pecados Mortais do Homem Civilizado”, Ed. Brasiliense, SP, 1988, pág. 86-91.

(3) – Maquiavel em “O Príncipe” – Anotado por Napoleão Bonaparte, Ed. Rio, 1979, pág. 35.

(4) – Revista Veja, 08/12/2010, “Entrevista”, Ed. Abril, SP, pág. 24.

(5) – Eliezer Batista em comunicação pessoal, 05/03/2009

Jorge Raggi, engenheiro geólogo, diretor da Geoconomica Minas (www.geoconomica.com.br) com atuação na área mineral, industrial e ambiental. Foi professor de engenharia de produção na Escola de Minas de Ouro Preto, UFOP, e na Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. Representou o Brasil no seminário de Proteção Ambiental, na cidade de Yalta, Ucrânia, convidado pela ONU. Possui várias publicações na área de engenharia de produção e ambiental. Autor do livro “Perícias Ambientais: Solução de Controvérsias e Estudos de Casos”, da Qualitymark, RJ, e do livro “Talento & Oportunidades”, da E-Papers, RJ.

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