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Artigos » GANHOS E PERDAS EM GERÊNCIA – Jorge Raggi

Ago/2009

O sucesso é gratificante. Cria orgulho, sentimentos de triunfo, de ser admirado, querido e desejado. A autoestima elevada nos torna mais ousados e a própria expressão corporal de bem sucedido se traduz com uma pose elegante e altiva, brilho nos olhos, as maças do rosto proeminentes, os lábios com os cantos levantados. O ganho fortalece a IMAGEM que criamos do que somos, nos leva à sensação agradável de estar num nível mais alto e pode desenvolver uma percepção de que este estado será para sempre. O que não é verdade: não existe vida somente de ganhos. O ganho fortalece a imagem do TER, do SER, e aumenta a criatividade propiciando as inovações necessárias ao trabalho e à vida.

Mas as perdas existem, e se pudermos lidar melhor com elas, saindo mais rápido do baixo astral, podemos ter melhor qualidade de vida. As perdas nos fazem sentir menores do que somos na realidade, e nos remetem ao sentimento de NÃO-SER, não existir – se traduzem na revelação de pontos fracos de nossa verdadeira natureza humana. É o ser (tudo) ou não-ser (nada) de Shakespeare; o PODER e a DOR. Esta emoção, a dor, ensina e revela realidades profundas.

A ação gerencial apresenta dificuldades, riscos e muitas vezes é impossível eliminá-los, mas sim desenvolver a percepção, criando condições para superá-los. Em meio a todas as dificuldades, conseguir tomar decisões e agir, sem a ilusão de que as dificuldades deixarão de existir. Alguns gerentes geniais podem nos ajudar a compreensão de ganhos e perdas que enfrentamos em nosso trabalho.

Eliezer Batista, presidente da Vale na década de 1.960, com o Brasil completamente desacreditado no âmbito internacional, e com crédito externo raro, para não dizer inexistente, criou o desafio de conseguir financiamento para a construção do Porto de Tubarão. Foi uma jornada desalentadora, com negativas de todos os lados. “Um grande banqueiro americano me disse com todas as letras: ‘Seu país não tem crédito e sua companhia não existe. Além disso, não acredito nessas siderúrgicas japonesas.‘ Batemos também à porta de bancos europeus. Éramos tratados como se estivéssemos pedindo crédito para construir uma fábrica de perucas no Senegal. ‘Isso é um sonho tropical’, respondiam uns; ‘os japoneses só sabem fazer brinquedinhos’, desdenhavam outros. Lembro-me de noites tenebrosas no outono europeu: o frio cruel do fim de novembro e aquela sensação de fracasso à espreita. A auto-estima submerge a níveis incalculáveis. A vida parecia não ter mais nenhum valor”. (“Talento e Oportunidades”, Jorge Raggi,p.26, Ed. E- Papers, RJ)

Maximizando ganhos e perdas na voz de quem construiu um império, Napoleão Bonaparte comandou 60 batalhas, conseguiu 40 vitórias: “A sorte de uma batalha é o resultado de um instante, de um pensamento. Aproximamo-nos com combinações diversas. Confundimo-nos. Batemo-nos durante um certo tempo. O momento decisivo apresenta-se, uma centelha moral rompe, a menor reserva realiza o resto. “ (Napoleão, Emil Ludwig, p. 399. Ed. Globo, Porto Alegre, 1969)

 

O aprofundamento e a aplicação desta questão gerencial de ganhos e perdas pode ser buscado em outras áreas do conhecimento. O psicanalista Igor Caruso em “A Separação dos Amantes” ,(Cortez Ed., SP,1984), estuda 45 casos de perdas, abrindo seu livro com : “Uma das mais dolorosas experiências na vida humana – e talvez a mais dolorosa – é a separação definitiva daqueles que se amam.”. E na p. 267 diz : “…o homem vive sua profissão ou seu trabalho como se fosse uma espécie de amante”. O biólogo e psiquiatra John Bowlby na sua monumental trilogia “Apego”, “Separação e Perda” (Livr. Martins Fontes Ed.,SP, 1984) desenvolve métodos quantitativos com experiências e casos revelando o quanto nosso emocional é profundo, complexo, interativo e inovador. Temos um grande potencial a desenvolver para lidar melhor com ganhos e perdas, com nossas emoções no dia a dia gerencial.

A mensagem final de Darwin em “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais” (p. 340,Cia. das Letras,SP,2000) é : “Aquele que se permite gestos violentos aumenta sua raiva; aquele que não controla os sinais de medo sentirá ainda mais medo; e aquele que permanece passivo quando dominado pela tristeza perde sua melhor chance de recobrar alguma flexibilidade mental.” Ganhos e perdas na vida gerencial são vivências emocionais, e o zen budismo ensina em suas muitas estórias que o ganho pode ser sentido como estando no céu e a perda como no inferno. Enquanto a realidade é que estamos mesmo é na Terra, com emoções.

“À entrada da quadra central de Wimbledon, na Inglaterra, e também encimando os degraus que conduzem à tribuna de honra no estádio do West Side Tennis Club, em Forest Hills, Long Island – encontram-se idênticos dizeres. São dois versos poéticos de “SE”, de Rudyard Kipling: Se puderes enfrentar o Triunfo e o Desastre e tratar esses dois impostores como iguais”… Nessas linhas, Kipling dá o quadro perfeito do que um grande tenista deve possuir e ambas as Federações, Inglesa e Americana, o reconhecem. É uma maneira longa mas correta de dizer uma única palavra – Coragem!” (“Tênis, Como Jogá-lo Melhor”, William T. Tilden,p.109 ,Livr. Pioneira Ed. SP, 1966).

A maior escola da vida gerencial pode estar mesmo na coragem de vivenciar ganhos e perdas. E como reforçarmos essa coragem? Vamos precisar de métodos, que podem, inicialmente, se apoiar em outras áreas do conhecimento. Métodos focados, pois a coragem se desenvolve fazendo…, fazendo…, fazendo…; interando talento com oportunidades, desenvolvendo a percepção e o conhecimento de nossa natureza humana. Este fazer é o mesmo nos esportes, nas artes, no trabalho amoroso, na vida, na gerência. Apreende quem faz.

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