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Artigos » FOCO e “MINDFULNESS”

FOCO e “MINDFULNESS”      jorgeraggi@geoconomica.com.br     jan.2017

Podemos aumentar nossa capacidade de foco? Por exemplo, estar mais atento ao planejar e ao agir? Se eu conseguir reduzir o número de pensamentos dispersivos que tenho, aumento minha capacidade de intuição?

A meditação “Mindfulness” pode ser aplicada ao foco em gestão. Poucas pessoas nascem com foco de modo diferenciado e conseguem vivenciá-lo. A maioria de nós precisa desenvolvê-la. A observação dos comportamentos de crianças mostra que algumas são mais focadas do que outras, algumas conservam o foco em sua vida, outras não. Um melhor entendimento da questão pode ser alcançado ao abordarmos alguns conceitos como vontade, intensão (de intenso), percepção, intuição, atenção e ação. Vamos considerar neste texto a vontade como um desejo consciente, do qual temos conhecimento e que sabemos como se originou. Ou seja, temos consciência da nossa vontade.

Consideremos a intensão (de intenso) como um desejo profundo, que surge como uma força vinda de dentro do ser, do estado não consciente, criando um envolvimento total. Difere de intenção, que é mais uma vontade, um propósito. Essa distinção permite conhecer por que muitas vezes temos desejos conscientes (vontades, intenções), mas não alcançamos as realizações. Já quando envolvemos todo o nosso ser, com intensidade, podemos alcançá-las. O neurocientista Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia, USA, demonstrou que, segundos antes do querer consciente do agir, já houve sinais detectáveis em nosso cérebro de que vamos agir. E a intensão depende de algo mais do que a vontade consciente. Depende da totalidade do nosso ser, ainda desconhecida.

A percepção é uma das bases do foco. Peter Drucker dizia que as pessoas lhe perguntavam continuamente: “Como você vê essas coisas?” Ele respondia: “Como você não vê?” E comentava que um dos grandes teólogos da Igreja Católica, São Boaventura, quando lhe foi pedido para explicar a diferença entre São Tomás de Aquino e ele próprio, respondeu que Tomás é muito mais inteligente, e sabe muito mais do que eu, mas se o Anjo do Senhor aparecer, eu o vejo primeiro. Era Boaventura que o Papa chamava, em decisões difíceis.

A intuição é a comunicação direta com todos os nossos sentidos. As mulheres utilizam muito, e não adianta argumentos contra o que intuem – tal é a confiança no seu ser mais íntimo. Uma intensão profunda tem conexão direta com a intuição. Por isso, mobilizamos todo o nosso ser. A ação criada é íntegra, sem divisões. A meditação pode ser direcionada para desenvolvimento da intuição.

Alguns relatos bem documentados na história do zen-budismo focam a atenção, a percepção e a intuição como preparação para uma ação por meio da “não–ação”, ou a ação maximizada. Esta expressão, como muitas no zen, não tem uma denominação convencional, seguindo a máxima de que, se quisermos adquirir um conhecimento profundo, não devemos nomeá-lo, porque podemos engessá-lo, intelectualizá-lo, o que nos impediria de evoluir na realidade.  A ação por meio da “não–ação” ocorre quando uma pessoa executa uma ação com tal perícia que para outros parece fácil: como os grandes músicos, esportistas, artistas, executivos. A ação é executada com muito foco. O budismo é um dos caminhos mais conhecidos no oriente para se obter o foco. E a base é a meditação.

Recentemente começou a ser muito divulgada a meditação “mindfulness”, termo que pode ser traduzido como atenção plena, o estar no aqui e no agora, a mente aberta. A meditação, de um modo geral, tornou-se um produto de autoajuda acessível, mágico, que pode ser adquirida por todos os interessados, dada a facilidade de ofertas. Meditar é um processo simples, mas também difícil, já que exige dedicação e muita prática. Como é um método valioso para a obtenção de uma melhor qualidade de vida e mais produtividade no trabalho, gostaria de contribuir com algumas observações obtidas na prática da meditação.

No oriente, uma mente vazia, “mindfulness”, é um estado de vácuo, sem distrações, sem pensamentos ruminativos, culposos, dispersivos. É uma mente atenta, aberta à percepção e à intuição. Estas expressões, vazia, vácuo, não têm tradução conceitual no ocidente. São divulgadas, na forma atual como conhecemos, desde Buda Shakyamuni ou Gautama, há mais de dois mil anos na Índia. O budismo emigrou para a China por volta de 520 d.C., depois para o Japão em 1191, e chegou ao ocidente de modo mais consistente no século passado. O zen-budismo é uma das divisões do budismo, com os mestres filósofos–religiosos, e os mestres em artes marciais. Atualmente os executivos japoneses praticam o zen para agir com foco maximizado.

Meditar pode ser entendido como exercitar. É mais elaborado que um exercício. É nos encontrarmos conosco mesmos no momento presente. É nos libertarmos do estado comum de uma mente cheia, ocupada, confusa, e passar a um estado de vácuo, uma chance de dar abertura maior à criação. Pode gerar medos ver o que somos na realidade. Uma forma de lidar com medos é por aproximações sucessivas. Posso ir devagar para desenvolver a concentração.

Existem vários métodos de meditar. Um dos mais conhecidos utiliza a contagem na respiração. A cada respiração (inspiração e expiração) deve-se contar de um a dez e recomeçar. Quando se perde o foco, deve-se reiniciar a contagem. Quando o contar se tornar natural, pode-se avançar e seguir no processo da respiração somente com a atenção. O passo seguinte é meditar no estado de vácuo.

Outro método de meditação utiliza o “koan”: trabalha-se com uma pergunta ou até com uma só palavra sem levar em consideração o raciocínio lógico. Também se pode usar mantra – um som sagrado, Om, por exemplo – o que é mais místico. Ou até mesmo se posicionar para meditar, inicialmente sem orientação, que será dada depois por um instrutor. Uma boa referência sobre o zen é o livro “Os Três Pilares do Zen” de Philip Kapleau. Esse autor chama a atenção para a falsidade da intelectualização do zen, que é baseado na prática. E destaca que o zen é a consumação das experiências espirituais de três grandes civilizações asiáticas: indiana, chinesa e japonesa.  O que é denominado no zen de auto-realização, iluminação, tem um exemplo no texto do escritor William Somerset Maugham, “O Fio da Navalha”, com duas versões cinematográficas: de 1946 com Tyrone Power, e de 1984 com Bill Murray.

Minha experiência em relação a práticas de meditação consiste em detalhar um método, que pratico há anos, e que pode ser denominado de “Intervalos entre Pensamentos”. Para mim é mais objetivo ir direto ao vácuo na mente. Consiste em se colocar confortavelmente, como sentado em um sofá. Não se deve deitar, pois induz ao sono, o que não é meditar. Sempre busco um estado corporal de relaxamento. Todas as vezes em que me descontrolo, busco o relaxamento – e nunca um estado de controle. Esse método de meditar exclui controle. É estar solto, livre.

Na minha adolescência, estudei alguns filósofos orientais e optei por esse método de atentar para o vácuo que ocorre entre os pensamentos. Observo o pensar, as imagens, a quantidade dos pensamentos, as sucessões intermináveis, os compromissos, os sentimentos de culpa, os desejos futuros. Deixo fluir, sem interferir. Deixo o pensar vagar. Entre os pensamentos surgem intervalos, vazios, vácuo, nada. É o conhecimento original. A percepção plena e ampla. A percepção que está no intervalo do pensar. Cada vez que posso, fixo nesse vácuo. O zen-budismo denomina vácuo o conhecimento original, que é o estado em que nos encontramos quando nascemos e logo depois perdemos. A busca é um retorno à nossa verdadeira natureza ao nascer, e que perdemos com o processo de socialização existente.

Quando comecei a praticar a meditação, utilizava, em média, duas horas por dia, fiz isso por quatro anos. A quantidade de pensamentos vai se revelando à medida que avançamos no meditar. Seria como a experiência de observar um céu estrelado em local sem iluminações. À medida que focamos o olhar, vamos enxergando cada vez mais estrelas e aprofundando nossa visão. Com a prática da meditação, mínimas sensações relacionadas ao que pensei vão se transformando, com o tempo, em pensamentos mais estruturados.

Um modo de operacionalizar esta meditação, de “Intervalos entre Pensamentos” é utilizar uma folha de papel à frente e um cronômetro, e, por 60 segundos anotar com um traço cada pensamento que perceber – sem preocupar com conteúdo. Não se estenda neles. Faça algumas vezes para quantificar. Observe que há intervalo entre os pensamentos. Este é o foco “mindfulness”, mente vazia, percepção aberta, vácuo. Este é o lugar do Eu. Pensamentos são produtos, como lágrimas, auto – recriminações (“eu não deveria…”), comportamentos operantes (“eu tenho que…”). À medida que nos dedicamos a meditar, mais percepções, pensamentos, emoções, vão ocorrer. Existem aprofundamentos, e os intervalos podem ficar mais nítidos e maiores.

Quando senti que o número de pensamentos por minuto, estava com uma média estável, quis saber, quantos pensamentos tinha. Posicionei-me sentado junto a uma mesa, folha de papel, um lápis, e utilizando o cronômetro, anotei, por várias vezes quantos pensamentos eu criava por minuto. É trabalhoso obter este resultado estatístico. Obtive uma média de 45 pensamentos por minuto. Após quatro anos de meditação, focando no “Intervalo entre Pensamentos” consegui reduzir para a média de sete pensamentos por minuto. Entendi que para chegar ao vácuo, conforme os mestres prescreviam, significava denegar as emoções. E isto eu não concordava.

Aceitei o resultado alcançado, e fui buscar conhecer minhas emoções e vivê-las. Ainda sabia que  quanto mais nos aproximamos do objetivo mais difícil é o avanço. A partir deste período, passei a utilizar a meditação de modo mais solto, descontraído, sem horários. Para escrever este texto, fiz uma contagem atual e cheguei à mesma média de sete pensamentos por minuto, que havia alcançado anteriormente. Atualmente, utilizo intervalos de tempo variáveis para meditar: 5, 10, 20, 30, 60 minutos, sem preocupação com rigor. É um tempo para sentir, perceber a mim mesmo, focando no vácuo interior. A percepção aumenta quando há mais vácuo. “Nada de santo” disse Bodhidharma. Não é luminoso. É um reencontro com meu estado ao nascer. Nesse momento, sinto como diante de cenários na natureza, diante do mar, em uma floresta, em uma estrada de terra batida. Estou na minha verdadeira natureza.

O estado “Vazio” é o lugar em que não há nada, “como escreveu o samurai Musashi, não faz parte do conhecimento cultural”. Só pode ser atingido com a intuição aberta. E intuição não é um conhecimento, é um estado do ser.  Só pode ser alcançado pelo desenvolvimento da atenção sobre si mesmo, o que exige coragem, até que a atenção plena começa a aparecer e  surge um sentimento de muita liberdade. O “Vazio” é um estado de paz no oriente, alcançado com a denegação das emoções e adquirindo um comportamento de impassividade. Algumas pessoas para se mostrar iluminadas exibem um esboço de sorriso e brilho nos olhos – o que pode ser falsidade.

O site:       http://www.vox.com/culture/2016/12/6/13821430/penny-every-thought-rich   informa que na University of Southern California’s Laboratory of Neuro Imaging pesquisadores do laboratório realizaram algumas experiências iniciais com testes em estudantes utilizando monitoramento eletrofisiológico, e descobriram que a pessoa média tem cerca de 49 pensamentos por minuto. Mas adverte que esses estudos servem apenas como uma estimativa aproximada. E que nós, seres humanos, apenas arranhamos a superfície da ciência do nosso processo de pensamento. Permanece desconhecido exatamente quantos pensamentos nós temos cada dia – ou o que mesmo constitui um “pensamento”. O site tem também uma tabela mostrando o quanto ganharíamos se pudéssemos vender nossos pensamentos.

Nos livros de Terapia Cognitivo – Comportamental, há vários levantamentos qualitativos dos pensamentos, focando nos autopunitivos que conduzem à baixa estima e às depressões.

Uma observação sobre o foco em gestão é que podemos encontrar pessoas desfocadas nas suas atividades na vida, mas, quando se trata de uma área específica, elas conseguem centrar e focar com genialidade. São consideradas um fenômeno, como nos casos descritos pelo psiquiatra e escritor Oliver Sacks, as pessoas com deficiências e/ou com necessidades especiais, mas com genialidade em especialidades, que se projetaram. Essas pessoas têm total envolvimento na ação focada, e agem integradas para atingir seus objetivos.

Ainda estamos distantes de uma maior compreensão de nós mesmos. Podemos testar esta realidade com a linguagem. Utilizamos pronomes possessivos tanto para nos referirmos às partes do nosso próprio corpo como para objetos: minha mesa, meu carro, minha cabeça, meu braço. Pode ser que no futuro passemos a dizer: minha mesa, meu carro, a cabeça, o braço. Pois cabeça e braço sou eu mesmo, e não minha posse, distinto de mim.

Meditar para obter a redução dos pensamentos dispersivos, sentir cada vez mais as sensações e emoções, agir com responsabilidade diante de si mesmo, das pessoas, das outras espécies e da natureza pode ser uma proposta ocidental de “Mindfulness”. No ocidente, mais ainda nos trópicos, não denegamos as emoções. Meditar para maior consciência das emoções, pode alavancar o desenvolvimento da intuição e da consciência. Aqui no ocidente queremos felicidade: paz com alegria – o que é muito mais difícil.

 

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