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Brasis (artigo publicado na revista “Mercado Comum” maio/junho 2012)

jorgeraggi@geoconomica.com.br

Em 1500 nosso atual território estava todo ocupado quando houve a invasão portuguesa. Somavam 640.000 nativos, 11 etnias, só na costa marítima, conforme Eduardo Bueno em “Brasil: Uma História”. Estima-se que, nessa época, havia 5 milhões de nativos na extensão atual do território brasileiro, falando 1.300 idiomas diferentes.

A ocupação portuguesa foi lenta, em torno de 100.000 nos primeiros 200 anos. Foi disputado por franceses e holandeses. Os primeiros relatos que foram conservados enfocam muito os comportamentos dos nativos, e pode ser que esses comportamentos sejam a maioria dos que nós temos no presente. Se assim for, como exemplo, a versatilidade e o entendimento ágil e agudo vistos pelo francês Yves d’Evreux em 1613 – 1614, pode ser mais pesquisado e aplicado no nosso desenvolvimento.

Os nativos eram mais numerosos dos que os portugueses que aqui chegaram e do que os africanos que foram trazidos à força para trabalhar nas fazendas, nas minas e depois que o pau-brasil dos brasileiros – que trabalhavam com essa madeira – deixou de ser econômico e competitivo. Brasileiro era a profissão de quem trabalhava com pau-brasil, podendo ser português, francês ou de qualquer outra nacionalidade.

Os nativos absorveram os costumes dos portugueses, dos africanos e de outras várias nacionalidades que aqui aportaram. Os gens alteraram, mas o ambiente é o dos nativos e ficamos todos com a grande maioria dos comportamentos então já existentes em 1500, porque eles estavam ancorados em mais de 10.000 anos de civilizações nesta terra.

As pesquisas antropológicas indicam várias migrações que retroagem a milhares de anos. O crânio de “Luzia”, encontrado nos arredores de Belo Horizonte, mostrou traços negroides na sua constituição, datado de 11.500 anos pelo método carbono – 14.

A miscigenação das três raças que nos formou após 1500 está apoiada em mais de 10.000 anos de civilização. É importante considerar o peso de cada uma das raças, mas talvez o peso maior seja do quarto componente : o ambiente. Se assim for, os comportamentos dos nativos adaptados ao território é que prevaleceram.

Outro aspecto a ser considerado, que se refere aos comportamentos – bem marcantes – dos nativos, presente nos textos dos que primeiro escreveram sobre eles, pode ser uma prova deste fato: quando aceitamos, atualmente, que algumas leis sejam respeitadas e outras não, mostra que não mudamos significativamente este comportamento em 500 anos. Ou seja, precisamos ser convencidos por persuasão mais do que por leis e penalidades.

Cao Hamburger, diretor do filme “Xingu” lançado em 2012, disse em entrevista ao jornal “Valor”, 27/04/2012, que nas cenas em que os índios participavam, quando cansavam, simplesmente abandonavam a cena e deixavam a equipe a ver mosquitos. Fábio Lins, presidente da Prudential do Brasil, “O Tempo”, 29/04/2012, revela que se demonstrar para um japonês que o valor que ele gasta para ir a esportes no mês, ele pode pagar um seguro, não tem dúvidas que ele comprará a apólice. O brasileiro irá optar pelo lazer.

Esta opção maior pelo lazer do que o trabalho é uma prova da influencia do ambiente. Onde existe inverno rigoroso, ou, clima desértico, é necessário acumular, planejar mais para conseguir viver.

Em “A Inconstância da Alma Selvagem”, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro destaca vários depoimentos de europeus que primeiro tiveram contatos com os nativos nos século XVI e XVII. Resumindo e reduzindo muito o artigo, no Sermão do Espírito Santo, padre Antônio Vieira disse “os brasis, ainda depois de crer, são incrédulos”. Não havia fé, lei e rei. O chefe de cada aldeia precisava convencer para mandar. O capuchinho Évreux dizia que eram grandes amantes da bebida, lúbricos, inventores de falsas histórias, mentirosos, levianos, inconstantes. Mas versáteis ao extremo, de entendimento ágil e agudo. No Diálogo da Conversão, o padre Manoel da Nóbrega é incisivo :”Sabeis qual é a maior dificuldade que acho ? Serem tão fáceis de dizerem sim, ou como vós quiserdes; tudo aprovam logo, e com a mesma facilidade com que dizem pá (sim), dizem aani (não).”

Os brasis não eram judeus ou muçulmanos, que eram forçados a aceitarem outra religião, com outros deuses, outras crenças. Para Anchieta, “os impedimentos que há para a conversão e perseverar na vida cristã … são seus costumes inveterados … como terem muitas mulheres; seus vinhos em que são muito contínuos e em tirar-lhes há mais dificuldade que em todo mais … as guerras em que pretendem a vingança dos inimigos, e tomarem nomes novos, e títulos de honra; o serem naturalmente pouco constantes no começado, e sobretudo faltar-lhes temor e sujeição.”

A vingança era um exercício constante de vida para os brasis, quase uma religião, era o ponto inegociável, não o canibalismo a ela associado. Guerreavam muito entre as tribos – um exercício constante. Preparativos. Aí se incluía o canibalismo como um ritual que propiciaria novos combates. A pessoa a ser canibalizada tinha que ser um valente, que merecesse a honra. Talvez por isso, Hans Staden não foi comido. Ele chorava algumas vezes. Mas deixou bons relatos sobre os costumes da década de 1540.

O missionário francês Thevet conta um encontro com o grande chefe Pindabuçu, que estava acamado com uma febre persistente, e este perguntou o que era feito com as almas depois que saíam do corpo. Thevet respondeu que iam para junto de Tupã, lá no alto, no céu, junto daqueles que não eram vingativos. Dois dias depois, Pindabuçu pediu para chamar Thevet e pediu-lhe para rogar por ele a Tupã, e acrescentou que, assim que estivesse de pé e com saúde, vestiria como ele, usaria barba comprida, honraria Tupã,… se conformaria com tudo, com exceção de não se vingar de seus inimigos; e que, mesmo se o próprio Tupã lho ordenasse, ele não poderia concordar, pois, se o fizesse, mereceria morrer de vergonha.

O canibalismo era um ritual, e a própria pessoa a ser executada tinha orgulho do culto. Existia toda uma preparação por meio da qual o prisioneiro sentia que teria uma morte gloriosa, muito preferível a morrer e ser sepultado. O inimigo ideal para ser canibalizado por um tupinambá era outro tupinambá. Cardim registrou que alguns prisioneiros manifestavam seu contentamento em serem comidos e que não aceitavam ser resgatados. Seriam vingados e isso seria considerado uma honra, pois a guerra era uma religião.

Longa vida, abundância, vitória na guerra era o que os brasis desejavam. Em lugar disso, os portugueses determinaram o oposto: “em vez de errância migratória, aldeamento forçado; em lugar de longa vida e abundância sem esforço, morte por epidemias e trabalho escravo; em lugar de vitórias sobre os inimigos, proibição de guerras e de canibalismo; em lugar de liberdade matrimonial, novas restrições.”

Os brasis não impunham castigos físicos nem davam ordens ásperas uns aos outros e aos demais e também não aceitavam a autoridade. Muitas vezes, pagavam o preço da adesão verbal, aceitando determinada situação, para serem deixados em paz. Era usual um homem ter três ou quatro mulheres e, se era valente, dez a vinte. Abbeville escreveu que não faziam a guerra para conservar ou estender seus limites, nem para enriquecer com os despojos dos seus inimigos, mas unicamente pela honra e pela vingança. Thevet acrescenta sobre “essas guerras sem justa causa, obra de uma mera vontade de vingança, e de uma índole bestial, que os faz tão sanguinários e na qual estão tão imersos, que se uma mosca passar diante de seus olhos eles quererão vingar-se dela.” Tinham uma memória elefantina para as coisas dos inimigos.

Gandavo viu mais : “assim como são muitos permitiu Deus que fossem contrários uns aos outros e que houvesse entre eles grandes ódios e discórdias, porque se assim não fosse os portugueses não poderiam viver na terra nem seria possível conquistar tamanho poder de gente.”

As batalhas descritas pelos cronistas da época envolviam um bocado de bravatas, troca de insultos e gesticulação, e não há nenhuma referência a carnificinas – exceto, é claro, quando se fala das guerras dos portugueses contra os brasis. Estes eram belicosos, mas não eram violentos como os portugueses.

Jácome escreveu que “seus prazeres são ir à guerra, beber um dia e uma noite, sempre beber, cantar e bailar, em pé correndo por toda a aldeia, como vão matar seus inimigos e as novidades dos ataques, preparar seus vinhos e cozinhadas de carne humana, e as mulheres velhas que dizem que vão se tornar moças.”

Esta ambientação dos nativos gerando comportamentos chamava a atenção de todos que aportavam no nosso território, incluindo por aquele que veio a escrever “A Origem das Espécies”, mostrando que somos genética + ambiente. Darwin, duzentos anos depois dos primeiros depoentes, ao chegar a Salvador, com seus 23 anos, no dia 29/02/1832, escreveu em seus “Diários”: “Delícia, no entanto, é termo insuficiente para dar conta das emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira.”

Aportando no Rio de Janeiro, aceitou o convite de um inglês para visitar sua fazenda no Rio Macaé e relata atrocidades de um país escravocrata. Darwin chama a atenção para um tipo de comportamento das pessoas do lugar. Os que por ali passavam em viagem, ao desarrear os animais de montaria, pediam a gentileza de lhes ser oferecido algo para comer. “O que quiserem, senhores, era a resposta habitual.” Se tivessem sorte, duas horas depois, serviam frango, arroz e farinha. Muitas vezes, eles mesmos é que tinham que correr e abater as galinhas. E, se muito cansados, mesmo com muita educação, insistissem na mesa posta, recebiam a resposta : “Ficará pronto quando estiver pronto.” Se insistissem mais, mandavam seguir a viagem. Este comportamento que poderíamos chamar de lusitano, foi, em grande parte, absorvido.

No prefácio do livro de Darwin “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, Konrad Lorenz, em 1965, escreveu que padrões comportamentais são características tão confiáveis e conservadas nas espécies como as formas dos ossos, dos dentes, ou de outra estrutura corporal.

Nossa versatilidade, agilidade, alegria, maior opção pelo lazer, são comportamentos que nos identificam. Como também sermos incrédulos, sem heróis e sem aceitação de autoridades, violentos, desunidos, sem fé na palavra dada, e esperando abundância sem trabalho. Estudos como o foco na percepção dos nativos identificado por Gilberto Freyre, a falta de consciência que temos como povo, trabalhados por Darcy Ribeiro, podem ser mais desenvolvidos e aplicados na nossa vida e no trabalho.

O que procuramos evidenciar neste texto é que valorizamos muito o europeu, depois os africanos, e ainda chamamos de índios os nativos do nosso território, como se fossem da Índia. Mas pode ser que as características dos brasis de 1500 tenham predominado nos comportamentos que temos hoje. Conforme J. L. Borges, citado por Viveiros de Castro : “Todo homem é dois, e o outro é o mais verdadeiro.” O brasil mais verdadeiro no nosso comportamento atual seria aquele que já estavam com os nativos em 1500, pois vieram de mais de 10.000 anos de aculturamento no nosso ambiente territorial.

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