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Artigos » Autodestruição Evolutiva

Autodestruição Evolutiva

jorgeraggi@geoconomica.com.br

Por volta de 1990, resolvi registrar e enumerar minhas ações de autodestruição. Precisei de alguns meses para lidar com esse assunto e somei vinte e quatro. Dentre essas ações, posso citar a troca de nomes de pessoas (tenho boa memória); sonolências; coceiras; esquecimentos; alimentação em excesso; e outras. Relato aqui uma ocorrência: acordei bem disposto em um sábado para uma viagem a uma cidade próxima, iria a um encontro de pessoas amigas. Cochilei ao volante por mais de dez vezes. Até que percebi a autodestruição que estava criando: não havia causas reais para a sonolência. Parei em um posto, fui lavar o rosto, tomei café, exercitei-me um pouco. Prossegui viagem sem cochilar mais. Talvez essa ação de autodestruição fosse uma resposta comportamental relacionada à alegria de rever amigos com quem tinha ótima convivência, e eu era um convidado especial. Viver usufruindo prazer pode levar à criação de ações autodestrutivas. “Nada é mais difícil de suportar do que uma sucessão de dias felizes” conforme afirmou Goethe. Identificar um comportamento autodestrutivo enquanto o estamos criando, no estado inconsciente, em alguns casos, pode ser difícil [1].

O exemplo a seguir de ignomínia, uma grande degradação social, mostra que não é ainda bem conhecido o excessivo valor que atribuímos à aceitação social [2]. Um colega de engenharia com idade em torno dos cinquenta anos, no auge do poder profissional, presidente de uma empresa internacional de grande porte, foi demitido pelo acionista majoritário por razão política. Os seus pertences foram colocados à sua disposição na portaria principal da empresa. A ignomínia, comportamento que criou, inconscientemente, causou-lhe fortes dores emocionais que o levaram à morte. Acompanhei a evolução de sua doença por meses. Ele saía para caminhar e passava em frente ao meu escritório. Foi piorando a marcha, encurvando o corpo no andar. Abordei-o muitas vezes. Fui à sua casa conversar com a família. Pedi a um psiquiatra de minha relação que o examinasse. Sua situação financeira não era boa. O psiquiatra disse que era difícil vislumbrar uma melhora, pois o mal estava avançado demais e ele não tinha a que se agarrar para se salvar.

Esse colega estava criando a sua depressão em grande parte inconsciente. Ele se sentia muito culpado diante da família, dos amigos e colegas. Essa culpa, motivada por um fato real, não atingiu outros conhecidos, que, no auge da carreira, também foram demitidos e sofreram. Lembro-me de um que superou os problemas por que passou e cresceu como empresário. Outro conseguiu recolocação similar. Outros sumiram do nosso convívio. De uma ação autodestrutiva simples a uma impactante é questão de graduação. O mecanismo é igual.

Diante de uma ameaça, nós, como os animais, podemos enfrentar, fugir, ficar paralisados. Nós, humanos, podemos acrescentar o autodestruir – dirigir a destruição para nós mesmos. A autodestruição que criamos para nos adaptar à sociedade seria uma estratégia que conseguimos na evolução social até hoje. Pode ter sido muito válida no passado, até uma das bases da consciência. Atualmente podemos substituir por evolução da consciência. A autodestruição é ainda a opção mais fácil diante de uma ameaça real, ou imaginada (ansiedade). É um ato de covardia porque não há limites do que podemos fazer contra nós mesmos. Veja bem! Enfrentar o quê? Fugir para onde? Ficar paralisado? Ou agredir a si mesmo? Esta resposta comportamental e inconsciente é a mais adotada.

Quando crianças, lutamos para domar a nós mesmos e nos adaptarmos à sociedade na qual queremos ter projeção. Sociedades são várias: família, empresa, amigos, vizinhos, bairro onde moramos, cidade, estado, país, e a sociedade global. Se criamos uma clivagem, uma divisão do si mesmo, para nos inserirmos nessas sociedades, internamente também temos uma sociedade para lidar com ela, porque não nos sentimos uno, sentimo-nos como se fôssemos mais de um. Cada um de nós faz suas adaptações ao longo da vida, diferindo em graus. Sinalizamos que o fortalecimento de posições mais autênticas é uma das condições para reduzir as autodestruições. Incrementar a coragem de sermos o que somos. Mergulhar no viver! Ou seja, cada vez mais vamos discordar das sociedades em que vivemos até que alcancemos novos equilíbrios entre cada um de nós e a “sociedade imaginada”. Primeiro cuidar bem de si mesmo.

Agradecimento: ao consultor João Felipe de Godoy Panisi por suas críticas e sugestões.

REFERÊNCIAS

[1] Para conhecer comportamentos autodestrutivos inconscientes, após identificar as ações, podemos começar a não vitimizar a nós mesmos para desenvolver a consciência com liberdade. Os sentimentos de culpas nos levam apenas a continuarmos acorrentados. São prisões virtuais. Criticar ações passadas é criticar obras prontas, sem saber o que motivou as ações. Podemos, sim, analisá-las sem críticas autodestrutivas.

|2| Aspectos Culturais: dois exemplos. O “Poema em Linha Reta” de Fernando Pessoa começa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada…”. E termina: “… Estou farto de semideuses … Onde é que há gente? Onde é que há gente no mundo?”

O filme indiano “Khoobsurat”, disponível na Netflix, coproduzido pela Disney, dirigido por Shashanka Ghosh, com a atriz Sonam Kapoor, mostra um choque cultural entre uma fisioterapeuta inteligente, com muita liberdade, e uma família muito formal. Comédia romântica.

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