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Artigos » A Administração da Água

A Administração da Água

Jorge P. Raggi

A água é um assunto complexo. A sensação que não a conhecemos é uma realidade. Gostaria de tentar clarear esta questão com os seguintes pontos:

  • Conceitos Errôneos – Quantidade e Qualidade
  • A Complexidade
  • Agenda Cinza (Urbana)
  • Propostas

Conceitos Errôneos

As legislações dizem que a água é um recurso finito e vulnerável. Esta colocação mostra o quanto estamos equivocados. Ela é um recurso infinito e invulnerável, como enfatizou o prof. Edézio Carvalho em recente matéria publicada no jornal Estado de Minas. Todo o dia evapora água pura dos mares salinizados, para precipitar sobre a terra. Se assorearmos uma nascente a água continua a fluir em subsuperfície. Se a agredirmos mais, ela deixa de nascer naquele local e vai sair em outro, que pode ser distante. Se a contaminarmos, ela certamente vai se autopurificar. A questão é que pode demorar 50, 100, 500 anos para que isto aconteça. Então, cabe a nós, quando existe quantidade água, cuidar da quantidade e da qualidade afim de preservar seu local de surgência e potabilidade. Nossa postura de achar que temos de cuidar da água é ingênua e soberba. Temos de cuidar para que ela não falte onde estamos localizados. Ou seja, o problema é nosso e não da água.

A água é um solvente, um meio onde surge a vida vegetal e animal. Nosso corpo humano possui mais de 70% de água, e quando deixamos de viver, ela esvai. A água é anterior à vida, e indestrutível. Podemos alterar o seu estado, mas não conseguimos destruí-la.

Quantidade e Qualidade

Em relação à sua quantidade, a água pode variar da falta ao excesso, ambos os extremos criam danos à vida. Quanto à qualidade, a legislação atual a classifica de especial, 1, 2, 3 e 4. Ou seja, a água na natureza no sentido que ainda a entendemos, cristalina e pura, se tornou agora especial. As demais classes já são impuras, contaminadas.

O excesso de água, como nas enchentes, são mais diretamente percebidas nos extravasamentos das redes de drenagens e nas calhas dos cursos d’água. Para dimensionar os dutos, utilizamos pré-concepções de vazões médias, mas existe a recorrência (precipitações concentradas que o dimensionamento não comporta), que podem gerar tragédias. Isto sempre irá acontecer, pois não há recursos para construções faraônicas, prevendo todas possibilidades. Ou seja, de tempos em tempos, vamos ter enchentes, e com todas as consequências que são conhecidas.

Sobre a qualidade, a água é um meio para elevação e precipitação de contaminantes. Os metais pesados da combustão de combustíveis dos veículos, e de origem industrial vão para a atmosfera e retornam para o solo como chuvas ácidas.

É conhecida a brincadeira que nas grandes metrópoles você vê o ar que respira, e há locais mais críticos, como Cubatão-SP. Mas existem chuvas ácidas imperceptíveis que só podem ser percebidas com um programa de monitoramento. Se traçarmos uma malha de 1 km por 1 km sobre a área de uma usina e a de sua influência, e realizarmos uma amostragem do solo em cada nó da malha para análises de elementos químicos nocivos à saúde, colocando os valores em gráficos, poderemos saber realmente o que estaremos respirando ao longo de 10, 20, 50 anos. E mais, se há um entorno com plantações de verduras e legumes, saberemos o que estaremos concentrando em nosso organismo diariamente ao nos alimentarmos. Desta forma, algumas doenças ambientais que podem aparecer irão precisar de normas para evitar decisões apoiadas em argumentos emocionais. Por exemplo, uma doença teria causa ambiental quando atingisse um percentual significativo da população local, e não à partir de casos esporádicos e sem justificativas embasadas.

As legislações listam em torno de oitenta substâncias nocivas à saúde que contaminam a água. Mas se está na lei é porque já foram identificadas. Podemos estar certos que, com o avanço dos tempos, novos contaminantes serão descobertos e causarão problemas. É o caso das dioxinas, a seguir.

A Complexidade

Outro ponto a considerar é a relação de causa-efeito de fenômenos hidrológicos. Estes criam relações sistêmicas, de interações, como a seguir exemplificamos. As dioxinas mostram valores micros de contaminantes que são carreados pela água, deteriorando sua qualidade para uso animal e humano.

As dioxinas são substâncias tóxicas e cancerígenas, não encontradas na natureza e resultantes do processo inadequado de queima de produtos industrializados como pneus, lixo, plástico ou por caldeiras a carvão ou óleo diesel em processos de incineração. O limite máximo de dioxina tolerado pelo Ministério da Agricultura na produção de cal é 500 pg/kg, ou seja, 500 picogramas por quilograma de cal. Porém, já foram registrados níveis de 1,3 milhão pg/kg na região Centro-Oeste de Minas Gerais. Assim, quando o assunto é dioxina, estamos lidando com a trilhonésima parte do grama, isto é, o picograma. Uma vez o ar (vapor d’água) contaminado, iremos inalar a dioxina, e as águas contaminadas atingem as plantas e, por sua vez, os animais e produtos da agricultura e, consequentemente, estaremos ingerindo leite, carne e outros alimentos impróprios para o consumo.

Outro exemplo da complexidade ao lidar com a água é o fenômeno da desertificação. Existem vários locais no Brasil onde existem desertificações em curso. Mas preferimos um caso distante.

O Mar de Aral, situado numa área desértica, a SW da URSS, até 1960 possuía 68.000 km2 e estava, em 1990, com 2/3 desta área, e sua profundidade abaixou 14 metros. A denominada Região do Aral atinge 1.000.000 km2. O impacto ambiental maior foi provocado por grandes projetos de plantios de algodão (o ouro branco para os antigos soviéticos) com irrigação de águas dos rios que alimentavam o mar. A previsão era que o mar, neste ano 2.000, estivesse reduzido à metade. Foram lançadas milhões de toneladas de pesticidas e como a água secou em grandes áreas, a poeira contém tóxicos. A mortalidade infantil dobrou, atingindo 100 óbitos para 1000 nascimentos (comparável aos países da África) , 90% das mulheres sofrem de anemias, 70% das crianças com problemas respiratórios e a incidência de câncer no esôfago é 6 vezes maior que a média do país numa região que era famosa pela qualidade de vida e longevidade antes da década de 60. A falta de água aumentou a concentração de sais e levou ao desemprego 60.000 pescadores, criando as imagens de navios pesqueiros no deserto.

Em 1987, em mais de 100 cidades, somando uma população de 50 milhões de pessoas, as substâncias nocivas na atmosfera geravam chuvas ácidas, extinguiam flores e campos. Os projetos de irrigação degradavam dez vezes o permitido.

Tempestades de areia apareceram na região, o que nunca tinha sido observado antes, sendo que, na última década a temperatura teve um aumento médio de 3ºC. A estação das chuvas diminuiu para apenas 10dias/ano.

O desastre ecológico do Aral chega à Índia, Alaska e Ásia Central. Há regiões que a precipitação da poeira contaminada atinge 600 kg/ha, exigindo maior quantidade de água no solo, o que é difícil de obter.

Foram estudadas duas soluções. A primeira, a transposição de um rio, obra orçada em 150 bilhões de dólares. A segunda, que definitivamente seria melhor, consistia no desvio de dois rios da Sibéria, mas o orçamento atingiria quatrocentos bilhões de dólares. Ou seja, quando há uma quebra do equilíbrio ecológico é quase impossível retornar à condição original.

Os desastres ecológicos das dioxinas, na Europa em junho/99, e do Mar de Aral, na Ásia, mostram que não temos o controle da água, ela é um bem da natureza, acima de nós humanos.

Agenda Cinza (Urbana)

A postura no Brasil da população urbana versus indústrias merece destaque. As legislações sobre o uso das águas priorizam as necessidades de consumo humano, de dessedentação dos animais e manutenção do ecossistema, frente ao uso industrial – o que pode gerar problemas a administrar.

As questões ambientais tem sido divididas em agendas:

  • azul, que trata da água;
  • verde, da vegetação;
  • marrom, da industrial.

Podemos incluir a quarta agenda, de cor cinza, que é onde todos nos colocamos na condição de cidadãos, e provocamos uma das maiores questões ambientais: a poluição urbana.

Estudos ambientais na Região Metropolitana de Belo Horizonte mostram que as indústrias não atingem 10% dos impactos. A grande questão é a poluição urbana. Cada um de nós, em média, gera 1 a 2 kg/dia de rejeitos na forma de lixos, esgotos. Uma simples multiplicação mostra o quanto vai para os aterros sanitários (quando existem), para as águas dos rios, entre outros. Um país com grandes contingentes de populações pobres e miseráveis gera muita poluição, e teremos que administrar de forma inteligente: poucos recursos x grandes problemas. A administração da água por Comitês de Bacia Hidrográfica pode significar que o usuário pagador (empresas) será voto minoritário. Este é um ponto importante na comunicação social das empresas.

Para lidar com a água precisamos de posturas pró-ativas, ou seja, adiantar soluções de pendências que podem acontecer. Os efeitos sistêmicos gerados por um grande desastre ecológico mostram que em poucos anos uma região pode ficar inabitável.

Propostas

Considerando a água em toda sua complexidade, interações e abrangência: água para beber, para preparo de alimentação, para higiene, para lavagem, a água industrial e a reciclada, os efluentes lançados em barragens, e/ou rios, para novamente captá-la e usá-la, existem propostas que no futuro poderão ser obrigatórias:

1 – Água para Beber e Preparo da Alimentação.

Como esta é a água mais preciosa, aquela que ingerimos em torno de 2l/dia, pura e nos alimentos, sua captação deve ser de uma fonte especial. Pode-se estudar as nascentes e definir aquelas mais puras para consumo com o mínimo de produtos químicos de purificação. É a água que ingerimos e seus conteúdos irão ser cumulativos no organismo humano. Os núcleos urbanos que puderem ter água sem tratamento para beber e condições econômicas para captá-la, podem se adiantar.

A água para lavagem e industrial seria das nossas captações atuais, que com o passar dos tempos vão ficar cada vez mais poluídas e exigir mais produtos químicos para desinfecção.

2 – Reciclagem do Lixo.

A Coleta Seletiva possibilita o melhor reaproveitamento do que consideramos lixo. Estes materiais continuam sendo matéria-prima para novos produtos. O quanto antes puder ser implantado, o quanto antes mudarmos nosso comportamento, estaremos agindo de forma pró-ativa. E esta é uma postura de resultados.

3 – Estudos dos Aquíferos.

Existe limites de uso para recargas dos aquíferos. Quando ultrapassamos determinados valores as consequências vão aparecer. Mesmo para indústrias que utilizam água do rio, há necessidade de monitorar a qualidade e quantidade, porque a disponibilidade de água depende do assoreamento das calhas, do clima, dos solos e rochas existentes e das modificações introduzidas na região pela sucessivas gerações humanas. Precisamos cuidar dos mananciais, monitorá-los a fim de elevar e manter sua quantidade, preservando-a para as gerações futuras..

(*) Engenheiro-Geólogo – Geoconômica Minas Ltda.
Agosto/2000
Palestra do Workshop Água na Siderurgia Sociedade Mineira de Engenheiros

Rua João Freitas, 19 B. Santo Antônio | Belo Horizonte - MG

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